COM DESTINO A BELÉM



Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?

Em 2010 descobri que o colecionador Rodolfo Siqueira, de Belém do Pará, possuía uma Virgínia City completa, intacta e na caixa original. Então em dezembro daquele ano partimos com destino a Belém para conhecer o Rodolfo e a sua preciosidade.

Quatro anos e meio se passaram, e eis que surge a notícia sobre a existência de mais um exemplar intacto da Virgínia City na mesma cidade, Belém. Não hesitei, contatei o colecionador que seria o feliz proprietário da tal Virgínia City, e marcamos nova viagem a Belém do Pará.

Visitar Belém não é nenhum sacrifício, exceto pelo deslocamento. Desde São Paulo são cerca de três horas e meia de voo até Belém. E transporte aéreo é uma coisa interessante, pois tratam o passageiro como gado. Lemos a todo o momento que o segredo do sucesso de um negócio é “foco no cliente”. Pois bem, transporte aéreo parece ser a exceção à regra, pois neste caso o segredo do sucesso seria algo como “o cliente é um lixo”.

Mas enfim, passada a irritação da viagem, chegamos a uma bela cidade, quente e com  excelente gastronomia.

Como sempre, uma vez que chegamos a Belém o Rodolfo Siqueira para o que quer que esteja fazendo e se coloca à nossa disposição. Por um lado, fico me sentindo como uma autoridade em visita à cidade. Por outro lado, fico um pouco constrangido por estar atrapalhando a rotina dele e da família.

Quando estive em Belém, em 2010, o Rodolfo guardava toda a sua coleção numa cidade próxima. Agora ele está em processo de transferir a coleção para Belém, sendo que uma boa parte dos seus itens já foram transferidos. Então, passamos no seu “esconderijo” (protegido até com grade de ferro e cadeados) para conferir o que já estava em Belém. Seguem imagens:

Entre os itens que o Rodolfo ainda não transferiu para Belém estão a Virgínia City, o Forte Apache Casablanca, e uma África Misteriosa gigante com mais de 40 ocas.

Na sequência partimos para visitar o colecionador João Carlos, que é o proprietário de uma maravilhosa Virgínia City, entre outros itens. Fomos recebidos (eu, o Rodolfo e ambas as esposas) pelo João Carlos na sua residência, juntamente com sua mãe, a senhora Maria Célia.

A senhora Maria revelou-se uma grata surpresa, super conectada na internet, desenhista de moda, projetista, colecionadora, e com conhecimentos em diversas áreas. O João nos contou que há décadas os seus brinquedos estavam guardados em caixas, e foi sua mãe que encontrou material sobre o assunto (no site Brinquedos Raros), despertando novamente nele o desejo de ter contato com aquelas relíquidas. Foi então que ele decidiu (há cerca de dois anos) retirar o que podia das caixas e colocar em vitrine. Muitas coisas ainda estão nas caixas por falta de espaço.

Mas antes de conhecer a coleção do João, fomos conhecer a coleção de casas de bonecas da sua mãe. A casa que aparece nas imagens abaixo foi inteiramente projetada e construída por ela, em estilo Vitoriano. A construção da casa levou um ano, e sua decoração levou outro ano. A frente da casa se abre, para que possamos ver por dentro. O nível de detalhes é absurdo, por exemplo, saem discos de dentro das capas de discos, e há dinheiro em miniatura dentro de gavetas. Imagino que precisaríamos de um dia inteiro apenas para examinarmos os detalhes de todos os cômodos da casa.

A casa do João e sua mãe é uma típica casa de colecionadores, tem de tudo. Latas, eletrodomésticos, aparelhos de telefone, garrafas de vidro, filmes, selos, moedas, etc.

Após a visita à coleção de casas de bonecas, e algumas informações sobre a história da família, passamos ao cômodo que contém a coleção do João. Já na entrada, uma surpresa. Em 1997 o João Carlos bateu o recorde mundial de abdominais, fazendo mais de 12.000 abdominais em pouco mais de 2 horas:

Aqui estão os três colecionadores reunidos, Rodolfo, João Carlos e eu. O macacão à esquerda é do irmão do João Carlos, Capitão Aviador Malcher, que era piloto da força aérea e faleceu em 1996, em acidente durante treinamento com paraquedas.

O João Carlos é muito colecionador. Para ter uma ideia, na imagem abaixo a foto em preto e branco é do aniversário de um ano do João, em 1963. Na foto aparece a decoração da festa, uma roda gigante e um carrossel. Pois bem, a roda e o carrossel estão ali, atrás da foto, guardados há mais de 50 anos. Quem mais tem algo assim?

A seguir diversas imagens da coleção do João Carlos. Chama a atenção:

A variedade de itens e temas;

O estado de conservação;

A organização.

Observando-se o plástico da Virgínia City, por exemplo, poderíamos afirmar que o brinquedo saiu da fábrica há poucos dias. Observem que ao lado da Virgínia City está o catavento original da primeira série do Chaparral, com base em madeira e pás em metal. Seguem as imagens:

Algo único:

O João Carlos guarda algo que dificilmente algum outro colecionador possui – a nota fiscal de compra da Virgínia City.

A aquisição ocorreu em 13 de janeiro de 1973, por Cr$110,00, na Rendeiro Autopeças Ltda. Alguns comentários:

- A data (1973) pode gerar alguma confusão. Então vamos tentar deixar as informações bem definidas. A Casablanca faliu em 1972, então em 1973 a empresa já não existia mais. Além disso, de acordo com todas as informações que possuímos, a Casablanca parou de produzir no fim de 1969. Então como é possível comprar uma Virgínia City em 1973? Simples, naquela época não havia a pressão por eficiência e giro de estoques que existe hoje, de forma que era possível encontrar nas prateleiras itens que estavam lá há anos. Eu mesmo vivi duas experiências neste sentido: em 1981 estive em uma loja em São Paulo que possuía para vender tudo (ou praticamente tudo) em termos de brinquedos de faroeste dos anos 70; em 1983 encontrei numa loja de Balneário Camboriú um Chaparral dos anos 70;

- A loja era de autopeças, não de brinquedos. Embaixo do nome da loja está escrito “o melhor para o seu carro” e “tudo para sua bicicleta”. Também não era incomum. A loja de São Paulo, que mencionei no parágrafo acima, era uma loja de guarda-chuvas.

Enfim, segue a imagem:

Entre os itens que o João ainda não conseguiu expor, por falta de espaço, estão um Chaparral completo da primeira série e um conjunto Bat Masterson.

Por fim, uma preciosidade. O João mencionou que possuía um Forte Apache de plástico, e chegamos a achar que era o da Casablanca. Não era, mas é algo curioso – um forte da Estrela. Jamais tinha ouvido falar que a Estrela produziu um forte. Seguem imagens:

Durante a visita ainda fizemos um bate papo de cerca de duas horas, por internet, com o colecionador Anibal Cristiano Haddad, de Franca.

Bem, era isso que eu tinha para contar e mostrar.

Agradeço novamente aos amigos, que me receberam tão bem em Belém. Já estou com saudades de vocês ... e da comida. Aguardamos agora que apareça a terceira Virgínia City em Belém...

Até a próxima!

Marcos Guazzelli

Junho de 2015





Comentários

Enviar comentario

De: Aniba Cristiano Haddad
Marcão, horas agradabilissimas que passei batendo papo com você, o Rodolfo e o anfitrião João Carlos. FORTE ABRAÇO a todos.


De: João Henrique Dantas
Fico feliz e orgulhoso, pois também sou de Belém e coleções e famílias como essa não tem preço, agradeço a você Guazelli e ao Jose Melo da Geppeto por fazer parte deste hobby maravilhoso, abraços a todos!


De: Marcus Vinicius
Parabéns a todos vocês que tiveram a coragem, a determinação e a competência para colecionar e guardar essas preciosidades. Minha mais sincera admiração.


De: SEBASTIÃO JÚNIOR.
Com os olhos cheios de lágrimas relembrei minha infância e a tristeza de nunca ter conseguido ganhar um FORTE APACHE, estou tentando montar um mas está muito difícil, parabéns a você JOÃO CARLOS é uma pessoa de sorte.


De: WAGNER ( Brinqtoys)
Saudações !!! Nosso colega nos EUA confirmou a origem do Fort Bravo, foi produzido pela MPC e foi adquirido de uma empresa da Florida há uns 4 anos atrás. A MPC foi uma espécie de segunda linha da Marx e continuou fabricando o Fort Apache após o encerramento da Marx Toys, tendo inclusive os fabricados recentemente mas com tiragem bem limitada e vendidos pela Internet e em lojas especializadas e temáticas. O Fort Bravo em questão não é mais fabricado. Abraços a todos !!!


De: RAUL AGUIAR
FANTÁSTICA MATÉRIA!FANTÁSTICAS COLEÇÕES!!!


De: João Henrique
Adoro minha mãe, mas quero uma mãe dessa. A minha deu todos meus brinquedos (e os do meu irmão também) quando eu tinha uns 14/15 anos e quando resolvi colecionar tive que praticamente começar do zero, com exceção de alguns matchbox, uma carroça e alguns soldados e índios que estavam na casa da minha vó. Só de curiosidade, fiz a correção do valor (Cr$110,00) e o conjunto custaria hoje algo em torno de R$350,00. Era um baita presente.


De: Tadeu Buono
Realmente nós podemos encontrar uma variação enorme de itens na " BRINQTOYS " ! Sou suspeito de falar , pois além de freguês deles , me tornei amigo de ambos , tanto do Wagner como do Reginaldo . Vale a pena visitá-los . Com referência ao que meu xará Tadeu Mahfud disse , e também afirmo que aconteceu comigo , que minha mãe deu todos os meus brinquedos para vizinhos , conhecidos , e parentes , que se perderam com o tempo infelizmente . Mas a vida continua e graças a meu esforço , consegui recuperar muita coisa para minha coleção , tanto no mercado livre , nos Brinquedos Raros do Sidnei , no MLantiguidades do Marco Leandro , e na Brinqtoys . Vai daí minhas dicas . Um forte abraço , e até breve . Obrigado pela oportunidade , Marcos Guazzelli , de nossos comentários e desabafos .


De: Marcos Guazzelli
Segue comentário do Wagner, da Brinqtoys: Fui conferir lá no site as imagens e certamente é o Fort Bravo. Eu tenho algumas daquelas figuras da Estrela mas muitas se perderam porque eu era muito criança qdo ganhei ( isso seria no final dos anos 50) O Fort Bravo é um playset desenvolvido pelo nosso fornecedor nos EUA e se me recordo ela teria escrito que é recast da MPC que talvez tenha utilizado os moldes da Marx Toys. ( outros produtos da Estrela eram da Marx ) Vou passar um email para nosso colega dos EUA solicitando maiores informações. Reportagem muito legal !!!! E quem diria Belém do Para é um esconderijo de colecionadores de itens raros.


De: Cassiano Olegario
Então e´só pesquisar de onde e de que época e´esse forte da brinqtoys e talvez tenhamos a inspiração para o forte da Estrela. Ninguém melhor do que o dono da própria brinqtoys pra dizer algo sobre o forte... ficamos no aguardo.....


De: Marcos Guazzelli
De fato, como menciona o Cassiano Olegário (abaixo) o Fort Bravo que está à venda no Mercado Livre é exatamente igual ao forte da Estrela, mostrado no artigo. Segue link do anúncio: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-669465301-fort-bravo-brinqtoys-forte-apache-cowboys-indios-_JM


De: Sylvio Maia
Muito bacana a matéria! Linda coleção de brinquedos. Curioso notar que a arte da base do Virgina City, segue o mesmo padrão usado no meu e no do Rodolfo Siqueira. Já o V. City que aparece no artigo "DIVERSOS - NOVEMBRO DE 2012", apresentou uma variação importante na pintura das bases. Contando os sets que eu conheço, o "placar" das bases está Padrão 3 x 1 Variação. Um forte Estrela é no mínimo muito curioso!


De: Cleso Brito
Muito legal o artigo e as fotos. Viajei no tempo. Abraço


De: Cassiano Olegario
fiquei analisando o forte da estrela e e´igual ao Fort Bravo que está sendo vendido na Brinqtoys, só não sei as dimensões, mas o forte e´igual!


De: Cassiano Olegario
Impressionante o capricho e a quantidade de itens!!! Igualmente o forte da Estrela! Não imaginava que houvesse um forte pois as figuras de faroeste foram poucas ( até onde se sabe). O bacana além de poder visualizar a coleção e´saber que nos dias de hoje ainda descobrimos pérolas como o forte da estrela. E´isso que faz a gente seguir colecionando! A possibilidade de encontrar um forte de plastico da Casablanca, ou a caixa do conjunto da Caçada no Gelo ....coisas que ninguém imagina que seja possível e quando a gente vê acontece!! Parabéns ao Guazzelli que corre atrás, enfrenta viagens, vai longe procurar e encontra essas preciosidades e informações que enriquecem cada vez mais o site !!


De: Tadeu Tufie Mahfud
De tempo em tempo abro o site do Guazelli (que já me visitou) para ver as novidades. Adorei esta matéria, como é bom saber de mães que guardavam os brinquedos dos filhos. Infelizmente a minha deu tudo embora em creches ou para meus sobrinhos. Mas é inenarrável a sensação de achar um item que foi seu há 40 anos. Uma matéria de invejar. obrigado Guazelli por tanto carinho com a gente e ao João por dividir este tesouro de imagens para gente.


De: Tadeu Buono
Parabéns pela maravilhosa reportagem . A coleção apresentada é de dar inveja , tantos itens , e em perfeitas condições . Parabéns a vc pela viagem e pela apresentação e parabéns ao João pela coleção ! Estas coisas nos trazem ao passado , um passado gostoso que nos dá saudades . Um forte abraço , e até breve .