GETTYSBURG 5



Alguns amigos reclamam que minhas respostas a e mails são muito curtas. E são mesmo. Ocorre que respondo mais de 200 e mails por dia, todo o dia. De um tempo para cá, termino meus dias com meus braços doendo, de tanto digitar. Então, tento responder e mails o mais objetivamente possível.

Em função desta dor nos braços, passei a associar, mesmo que inconscientemente, computador com desconforto. E assim, eu que sempre gostei de escrever, passei a ter que fazer força para sentar e escrever alguma coisa, como este texto. Tenho vários materiais/informações que leitores me enviaram nos últimos meses, e preciso transformá-los num texto. Mas vou sempre deixando para o dia seguinte, e nunca escrevo. Vamos ver se até o fim de maio eu consigo reunir tudo num “Diversos”.

Agora no final de abril estivemos nos Estados Unidos, para visitar a feira de Gettysburg. Foi a 4ª vez que participamos desta feira. Ano que vem, 2015, não poderemos ir, pois terei reuniões bem no período da feira. Tentaremos então visitar a feira de San Antonio, no Texas, que ocorre todo o ano em maio.

Como sempre, antes da feira aproveitamos para dar uma passeada pelo velho oeste. Talvez minha paixão por este tema beire as raias da obsessão. Podem me oferecer qualquer coisa: Nova York, Bahamas, Caribe, que eu prefiro mesmo é viajar pelo velho oeste americano, pelas pequenas e históricas cidades do interior, onde ainda resiste um pouco do espírito que transformou os EUA na nação mais rica e poderosa do planeta.

Como sabem, sou um admirador da história do General Custer. Sua carreira militar se dividiu em três grandes fases:

- Entre 1861 e 1865 ele combateu na guerra civil americana, fazendo uma carreira meteórica e chegando ao generalato com apenas 23 anos de idade;

- Entre 1866 e 1869 ele liderou o 7º regimento de cavalaria no enfrentamento aos índios das planícies centrais;

- Entre 1873 e 1876 (até sua morte) ele liderou o 7º regimento de cavalaria no enfrentamento aos índios do norte dos EUA.

Destas três fases, a mais conhecida é a última, por conta da batalha do Little Bighorn. A primeira fase, da guerra civil, também é razoavelmente conhecida. No entanto, a fase do meio é praticamente desconhecida.

O 7º regimento de cavalaria foi criado em 1866, no Fort Riley, Kansas, para combater os índios das planícies centrais. Tais planícies eram basicamente compostas pelo estado do Kansas, pelo Oklahoma (então território índio) e pelo leste do Colorado. Os índios a serem enfrentados eram Comanches, Cheyenes, Kiowas e Arapahos.

O centro, onde a maioria das ações se desenrolava, era o estado do Kansas. Lá o General Custer passou cerca de 4 anos em campanha quase permanente contra os índios. Foi seu batismo de fogo em guerras indígenas. Teve altos e baixos, incluindo uma corte marcial e uma condenação a ficar um ano afastado do exército (acabou sendo chamado de volta antes do final da pena). Eram campanhas muito desgastantes, os índios não se deixavam apanhar e as tropas passavam a maior parte do tempo tentando encontrá-los ou perseguindo-os. Muitos deslocamentos entre fortes eram realizados, principalmente por conta da necessidade constante de repor mantimentos. Doenças dizimavam as tropas. E as deserções eram frequentes.

Contudo, o período do General Custer no Kansas (planícies centrais) pode ser considerado um sucesso (pouco reconhecido pela história): ao final do seu trabalho, todas as tribos das planícies centrais estavam vivendo em reservas.

Custer registrou sua história nas planícies centrais em textos, e depois os consolidou num livro chamado My life on the plains.

Diversos fortes estavam espalhados pelo Kansas, e todos fizeram parte do processo de enfrentamento aos índios das planícies centrais. Entre eles, Fort Riley, Fort Harker, Fort Dodge, Fort Wallace, Fort Larned, Fort Hays. Sempre convivi com estes nomes enquanto estudioso de história americana, mas nunca havia visitado o Kansas. Desta vez aproveitamos para conhecê-lo.

Nossa primeira parada não foi num forte, mas sim na Universidade do Kansas.

Explico. Em 27 de junho de 1876 as tropas do General Terry chegaram ao Little Bighorn e encontraram apenas um sobrevivente – o cavalo Comanche, que era montaria do Capitão Keogh. Comanche tinha então três ferimentos de bala, e diversas flechadas, mas ainda não tinha chegado a sua hora. Ele foi tratado, se curou, e virou a mascote da 7ª cavalaria. Foi declarado que ele jamais poderia ser montado novamente. Era tratado com todas as mordomias, participava de desfiles e, sim, ao longo de sua vida acabou desenvolvendo o hábito de ingerir bebida alcoólica, que lhe era fornecida pelos soldados.

Comanche morreu no dia 7 de novembro de 1891 (por coincidência, 7 de novembro é o dia do meu aniversário), e foi empalhado (seria este o termo correto?) por um especialista da Universidade do Kansas. Em 1893 ocorreu uma gigantesca feira mundial em Chicago, e Comanche foi exposto, atraindo multidões de visitantes. Com tal sucesso de público, a Universidade do Kansas resolveu construir um museu de história natural no seu campus da cidade de Lawrence, e lá colocou Comanche, onde ele está até hoje.

Nossa primeira parada foi para visitá-lo. Seguem imagens.

Este é o museu de história natural, localizado em Lawrence:

Imagens do Comanche:

Ao chegar ao campus, cruzamos por diversos universitários, a caminho de suas aulas. Estava frio, e me chamou a atenção o fato de que as universitárias (todas as que vimos) iam para a aula de jaqueta/moletom e micro shorts. Como sou conservador, fiquei pensando – a que ponto chegaram os EUA, onde micro short passou a ser roupa de frequentar universidade. Nem no Brasil, com nossa reconhecida tolerância de costumes, as meninas vão para a universidade trajando micro shorts.

Comanche está numa pequena sala escura (a luz é inimiga), que também serve de corredor de passagem. Ficamos lá por cerca de uma hora, sentindo a sensação de estar ao lado de algo que esteve lá, na batalha do Little Bighorn. Durante este tempo, diversos estudantes passaram por ali (também é um corredor). Nenhum deles sequer olhou para o Comanche.

De Lawrence, partimos em direção ao interior do Kansas, e nossa primeira parada foi no Fort Riley. O forte ainda é um posto militar ativo, e impressiona a quantidade de equipamentos militares lá estocados. No seu centro estão preservadas algumas construções originais, e um delas é anunciada como “Custer House”, pois seria a casa que teria sido habitada pelo General Custer enquanto lá residiu. Seguem imagens:

Estudos mais recentes, contudo, indicam que não foi nesta casa que o General Custer morou. A casa efetivamente utilizada por ele teria sido destruída num incêndio.

No Fort Riley há um museu da história da cavalaria. Lá, imagens da formação da 7ª cavalaria e um interessante protetor de cabeça contra a chuva que, segundo o museu, pertenceu a Custer. Também uma gatling gun utilizada nas guerras índias.

Uma imagem de Comanche no Fort Riley, dois anos antes de morrer:

Uma das alas do museu reproduz o interior de uma residência do século XIX. Nela, um brinquedo que, segundo o museu, seria de 1885:

Prosseguimos viagem em direção ao Fort Harker. O forte foi praticamente todo destruído ao longo dos anos, restando atualmente apenas sua “guardhouse”, a prisão do forte. Mesmo assim, não deixa de ser um local histórico importante:

O próximo destino era o Fort Dodge, que atualmente serve como abrigo para idosos veteranos das forças armadas americanas. O Fort Dodge deu origem à cidade de Dodge City, famosa principalmente pelo seriado Gunsmoke, produzido entre os anos de 1955 e 1975.

Gunsmoke se passava em Dodge City (cenográfica), e a cidade denominou de Gunsmoke Street uma de suas ruas centrais:

Dodge City foi fundada em 1872 justamente para atrair colonizadores e ajudar na conquista do oeste. Com ferrovia, a primeira atividade econômica da cidade foi a exportação de couro de búfalo para o leste. Entre 1872 e 1875 foram abatidas cerca de 3 milhões de cabeças de búfalos na região da cidade, praticamente exterminando esses animais daquela região. Sem búfalos, Dodge City virou uma “cattle town”. As manadas de gado (milhões de cabeças) vinham do Texas para serem embarcadas nos trens em Dodge. Como toda a “cattle town”, Dodge foi violenta e, de certa forma, sem lei. Neste período teve entre seus homens da lei Wyatt Earp e Bat Masterson.

Em 1885 a ferrovia chegou ao Texas, e Dodge City perdeu relevância.

Em 1958 Amanda Blake, a Miss Kitty de Gunsmoke, visitou Dodge City. Em 2014 tentamos reproduzir a imagem:

Uma residência de 1879, fachada e interior:

Dodge City fica no sul do Kansas. De lá partimos rumo norte, em direção ao Fort Larned. Este forte é um dos mais bem preservados de todo o velho oeste. Está inteiramente decorado por dentro com alojamentos de soldados e oficiais, ferraria, suprimentos, hospital, etc. Seguem imagens:

O armazém de suprimentos, com estoques de uniformes:

Como os fortes, em sua maioria, não possuíam paliçada, a defesa contra os índios, em caso de ataque, era realizada através de buracos nas paredes:

No Fort Larned o General Winfield Hancock Scott se reuniu com Statanta, chefe dos Kiowas. Hancock ficou tão comovido com as intenções de paz de Satanta que ao final da reunião lhe deu de presente um uniforme de general. Dias depois, Satanta liderou um ataque ao Fort Dodge, trajado de general de cavalaria...

A próxima parada foi o Fort Hays, adjacente a uma cidade com o mesmo nome.

O Fort Hays possuía 10 residências de oficiais. Após ser abandonado, as residências foram sendo saqueadas e se deteriorando. Sobraram três, que em algum momento foram leiloadas. Os compradores as desmancharam, levaram para a cidade e reconstruíram para moradia. Dessas três, com o tempo sobraram duas que, décadas depois, foram doadas para o museu do forte (novamente desmontadas e reconstruídas nos seus locais originais). As duas casas estão atrás de mim na imagem abaixo:

As residências são inteiramente decoradas por dentro. Um delas com a decoração mais simples, do início da implantação do forte. A outra com uma decoração melhor, já dos anos finais do forte. Seguem imagens:

Oficiais de baixa patente solteiros tinham direito a apenas um cômodo, e este único cômodo servia de dormitório e sala de estar:

Além dessas duas casas, restaram a “guardhouse” (prisão) e a “blockhouse” (construção onde os soldados de concentravam em caso de ataque para dar combate aos índios através de buracos nas paredes):

No museu do forte há um peso (para exercícios físicos) que, segundo o museu, pertenceu a Custer. Também há um Fort Hays da Elastolin:

O último ponto de nossa viagem pela Kansas foi a famosa “cattle town” de Abilene, que teve Wild Bill Hicock entre seus xerifes na década de 1870.

A pistola de Wild Bill Hicock:

Abilene é a cidade do presidente Dwight Eisenhower, e lá está a sua biblioteca. Eisenhower era amigo de juventude, de Louis Marx. Ambos se conheceram jovens, no início de suas carreiras, e foram amigos durante todas as suas vidas. Quando se conheceram, Eisenhower era cadete da academia de West Point, e Marx era um pequeno comerciante. Foram desenvolvendo carreiras paralelas, Eisenhower acabou sendo o comandante supremo das forças aliadas na Europa durante a segunda guerra mundial e depois presidente por oito anos, enquanto Marx se transformou num gigante da fabricação de brinquedos, incluindo o Fort Apache e uma série de sets de velho oeste. Durante a campanha presidencial, Marx fabricava figuras de Eisenhower para ajudar na campanha, e Eisenhower o convidou para ser embaixador americano no México. Marx declinou do convite, pois preferiu continuar se dedicando à fabricação de brinquedos.

Durante os oito anos de mandato de Eisenhower, Marx lhe enviava sets de faroeste, pois sabia que o amigo presidente gostava. Eisenhower, por sua vez, montava os sets na Casa Branca e os deixava em exposição. Outros tempos...

Na sua biblioteca em Abilene há uma foto de um aniversário de um neto de Eisenhower com a decoração toda feita com brinquedos de Marx. E o convidado da festa é “só” ... o Roy Rogers...

Outras imagens de Abilene:

A partir de 1975 os fortes do Kansas começaram a ser abandonados. Em 1885 já restavam somente os fortes Riley e Leavenworth, que estão ativos até hoje. Como dizia um material que lemos lá no Kansas, os fortes foram vítimas do seu próprio sucesso.

Do Kansas, partimos para Gettysburg, para a feira de soldadinhos a ser realizada no domingo, 27 de abril.

A feira sempre foi realizada no salão do Gettysburg Hotel, localizado bem no centro da cidade. Neste ano eles mudaram para o salão do Hotel Eisenhower, localizado fora da cidade. A justificativa é que precisavam de mais espaço.

Esta foi a quarta vez que estivemos na feira. Achei a feira deste ano muito fraca, com pouca coisa de faroeste. Espero que seja apenas uma eventualidade, e não um sinal de que estejam perdendo força. Seguem imagens:

De novidade, Lego da guerra civil americana:

Meus braços já estão começando a incomodar. Então fecho este texto com a imagem de um quadro que gostei bastante:

Até a próxima!

Marcos Guazzelli

Maio de 2014





Comentários

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De: LUIZ CARLOS PAGLIARINI
Sua viagem foi simplesmente maravilhosa, aproveitou ao máximo. Parabéns continue assim, viaje e conheça lugares e repasse para nós, já que não terei a oportunidade de conhecer. Grande abraço do amigo e fã Luiz.


De: Jean Carlos
Prezado Guazzelli, parabéns por mais este brilhante artigo - e desejo ao amigo saúde, e que as dores que sente passem definitivamente. Sobre a matéria, o que falar? Bom texto, ótimas informações, excelentes fotos. Quando você viaja e depois relata suas andanças, tenha a certeza de que, de certa forma, viajamos junto com você. Muito obrigado por isso! Um grande abraço, e fique com Deus.


De: Gilmar
Guazelli, mais uma vez você consegue nos trazer informação de alta qualidade.Obrigado.


De: David Orling
Que maravilha meu amigo Guazelli!


De: RAUL
BACANA DEMAIS!!!MUITA COISA BOA PRA COMPRAR!!!!!!!


De: Tadeu Tufie Mahfud
Adorei...viajo sempre junto...mais uma vez amigo Guazelli, obrigado por seu tempo e prazer de dividir suas viagens. Abs. Ted


De: josé
Essas matérias que o Guazzelli faz sobre as viagens dele são simplesmente SHOW!


De: Marcos Faria
Gênios tem suas matrizes humanas e elas cobram um preço, não nos livramos delas mas temos como cuidar, cuide-se meu chapa, muito obrigado pelo texto como sempre uma viagem real para quem não pode ir a estes locais maravilhosos, os americanos tem orgulho de sua história parabéns a eles, assim como vc saõ um exemplo para nós todos. GD ABÇ!!@@!!


De: Roberto Vasco.
Simplesmente maravilhoso! Não sei o que falar.Parabéns pelo excelente texto e por dividir com os demais amantes do velho oeste americano a experiência de poder ver em detalhes os lugares visitados.Obrigado.