EM BARCELONA, COM JOSÉ GARCIA FRANCOS



José Garcia Francos é um espanhol que, bem jovem, no início dos anos 1960, emigrou para o Brasil. Aqui se estabeleceu na Mooca, como fizeram tantos imigrantes espanhóis. Especializado em eletricidade, não lhe faltou trabalho. Adepto de uma vida aventureira, alternou períodos de trabalho com períodos de viagem de aventura.

Mas eis que lá pelo fim de 1963, início de 1964, conheceu uma bela jovem (também espanhola), que viria a se tornar sua esposa em novembro daquele ano. E as aventuras precisaram dar lugar a uma vida mais sossegada. Sua então namorada, conhecida como “Branquinha”, realizava uma atividade em casa, para complementar renda – ela pintava figuras de bonecos de faroeste. Pela data, essas pinturas eram então realizadas para a jovem empresa Ortega & Lavin, que viria a ser substituída pela Casablanca a partir de janeiro de 1966.

Através da namorada, José foi apresentado a Luis Lavin, um dos fundadores das empresas Ortega & Lavin, Casablanca e Gulliver. Ao conhecê-lo, perguntou-lhe se a empresa já possuía representante para a região de Santos. Informado que não, José se ofereceu para tal posição, ao que o Luis Lavin respondeu que não teria condições de lhe pagar. José, que possuía alguma reserva financeira de trabalhos anteriores, disse que não precisava pagar naquele momento, poderiam acertar no futuro, quando a situação da empresa estivesse melhor.

Desta forma, José se transformou em vendedor de brinquedos de faroeste para a região de Santos. Com a proximidade do casamento, em novembro de 1964, José informou ao Luis Lavin que precisaria receber suas comissões acumuladas, e tudo foi acertado a contento.

A amizade entre os dois se fortaleceu, e José e sua esposa se tornaram padrinhos do primeiro filho do Luis Lavin, conforme imagens do batizado, abaixo (imagens do acervo fotográfico de José Garcia Francos). Nas imagens o Luis Lavin está de terno claro e o José de terno escuro.

No início de 1966, já então como Casablanca, a empresa lançou o Acampamento Apache e a Caravana. A demanda por esses produtos foi absurda, mas havia um problema – a produção de Caravana era muito baixa, e não conseguia atender a demanda. Além disso, a família Lavin necessitava de recursos para honrar o pagamento de propriedades imobiliárias recém adquiridas.

Preocupado com a situação, Luis Lavin pediu auxílio a José. O José sugeriu então que colocasse o engenheiro chefe de férias e deixasse a produção sob seu comando por algum tempo. Assumida a responsabilidade pela produção, José colocou a fábrica para trabalhar 24 horas por dia, enviava veículos da empresa para buscar funcionários em casa, e para levá-los de volta, e as refeições passaram a ser servidas na própria empresa. Tudo para ganhar tempo. O que mais emperrava a produção da Caravana era a confecção do toldo e, principalmente, daquela argola metálica por onde passa o barbante que prende o toldo à madeira da carroça. José estudou formas de produção, avaliou processos e fornecedores, até que conseguiu atingir o método mais eficaz e a produção pôde deslanchar e atender a enorme demanda do mercado.

Após conseguir colocar a produção em ordem, José sentiu-se mal, provavelmente por conta da estafa e, doente, se afastou da empresa por cerca de uma semana. Quando retornou ao trabalho, o engenheiro chefe (que havia sido colocado em férias) já estava lá, e José percebeu que o clima não era bom. Informou ao Luis Lavin que eles poderiam fazer um acordo, e ele deixaria a empresa. O valor do acordo foi negociado e acertado, e José encerrou sua experiência com a Casablanca. Isto ocorreu no 2º semestre de 1966.

O agora desempregado José concluiu que chegar a hora de começar a produzir seus próprios brinquedos. Viajou à Espanha para verificar os brinquedos que estavam no mercado espanhol. Se encantou com o conjunto Lawrence da Arábia, adquiriu seis caixas do produto e retornou ao Brasil.

Lá chegando, deixou um dos seis conjuntos para servir de molde, e destinou os outros cinco para a função de mostruário. Montou sua pequena fábrica e começou a produzir. Em função da sua atividade na Casablanca, havia desenvolvido amizade com os encarregados de compras das Lojas Americanas e da Sears, e eles passaram a comprar conjuntos Lawrence da Arábia para ajudá-lo. O brinquedo também foi apresentado em mais de 80 aparições televisivas, que foram permutadas por unidades do próprio conjunto.

A amizade com Luis Lavin permaneceu, afinal o Lawrence da Arábia não concorria diretamente com os produtos de faroeste da Casablanca. Segundo José, o Luis chegou até a visitá-lo em sua nova fábrica.

José criou um castelo de madeira que era vendido para ser montado com o conjunto Lawrence da Arábia. O marceneiro Pepe, que havia trabalhado na Casablanca, o auxiliou no desenvolvimento do processo de corte da madeira no formato que o castelo requeria.

Como o Lawrence da Arábia estava indo bem no mercado, José foi procurado pelos dois sócios da Fanabri com uma proposta de negócio. José não lembra mais o nome dos sócios, mas um era grego e o outro espanhol. E o espanhol também havia sido funcionário da Casablanca. A proposta era comprarem a Brinquedos Comanche.

Esta é uma informação importante, a Comanche já existia, não foi fundada por eles. José não se recorda do nome do primeiro proprietário da Comanche.

A Comanche estava com a produção paralisada, mas possuía cerca de 200 mil figuras em estoque. O José entrou no negócio com o Lawrence da Arábia e com algum dinheiro.

A empresa foi comprada e, como os produtos da Comanche concorriam diretamente com os da Casablanca, o relacionamento entre José e Luis esfriou.

Em setembro de 2010 publiquei o texto “Fragmentos da História”, com base em informações do Sr. X, o qual continha o seguinte trecho:

“Segundo o Senhor X, num verão, enquanto dois dos sócios estavam de férias, o terceiro sócio, que havia ficado encarregado de administrar a empresa, visitou todos os clientes da Comanche e ofereceu descontos para que quitassem à vista seus débitos. Recolheu todo o dinheiro e fugiu para a Espanha. Quando os outros sócios retornaram, a empresa estava quebrada.”

O José faz questão de esclarecer que a situação ocorreu da seguinte forma: nos primeiros dias de dezembro de 1969, após atender os pedidos das lojas para o Natal daquele ano, seus dois sócios de fato saíram de férias. Também saíram de férias os funcionários, e a empresa paralisou suas atividades. A esposa e as filhas do José também foram enviadas de férias para a Espanha, para ficarem com familiares. José iria para a Espanha no início de 1970, para visitar a feira de brinquedos de Valência. Mas no início de janeiro ele ficou sabendo que a Comanche estava com todas as suas contas bancárias bloqueadas. Tentou movimentar dinheiro e não conseguiu. Não dava para pagar as contas. Segundo ele, o bloqueio era uma reação do regime militar Brasileiro em função de um problema com um de seus sócios. Ele não sabe qual era o problema. Assustado com o bloqueio das contas, com o problema com o governo, com as dívidas, sozinho, e sem seus familiares, José agiu por impulso – vendeu os móveis e eletrodomésticos de sua residência e embarcou para a Espanha no dia 7 de janeiro de 1970.

Segundo ele, o único dinheiro que trouxe do Brasil foi o dinheiro da venda de móveis e eletrodomésticos da sua residência. Ao chegar à Espanha, alugou um pequeno apartamento, no qual vive com a esposa até hoje, e o apartamento ainda é alugado. Segundo José: “se eu tivesse roubado dinheiro dos meus sócios, não precisaria morar de aluguel há mais de 40 anos”.

Segundo José, ele nunca mais teve nenhum contato com seus sócios desde que veio para a Espanha. Também não sabe o que aconteceu com a Comanche. Imagina que a empresa teve muitos problemas, pois tinha as contas bloqueadas e muitos fornecedores para pagar. Ele nunca mais voltou ao Brasil.

Ao chegar à Espanha José foi trabalhar como vendedor de carros. Depois teve uma série de atividades, e atualmente está aposentado.

José tem 74 anos, duas filhas brasileiras, dois filhos espanhóis, e sete netos. Em novembro deste ano completará bodas de ouro, e tem um sonho – vir ao Brasil para celebrar as bodas de ouro na mesma igreja em que casou. Ainda não sabe se conseguirá realizar este sonho.

Na imagem abaixo, José enquanto tomávamos um café numa cafeteria Nuria da Rambla, em Barcelona, no dia 28 de março de 2014:

Decepção em Barcelona

Parece que o destino de um colecionador de brinquedos de faroeste é ver as coisas que gosta desaparecendo. Todas as melhores lojas de brinquedos de rua que eu gostava e frequentava em Barcelona deixaram de existir desde a última vez que estive lá, em 2011. Inclusive a loja Palácio del Juguete, que estava estabelecida desde 1933. Virou uma loja de sapatos. Super relevante, deve ter só umas 500 lojas de sapatos em Barcelona, então é bem importante abrir mais uma. A loja de sapatos está atrás de mim, na foto. Agora quem for a Barcelona já sabe que não corre o risco de ficar descalço...

Heróica Comansi

Num em que vemos as coisas que gostamos desaparecendo o tempo todo, é preciso louvar a persistência da Comansi, que segue produzindo brinquedos de faroeste no século XXI. E com produtos interessantes.

Além do Fuerte Comansi (já conhecido), agora há dois novos produtos na linha: uma carroça e um acampamento indígena. Tive que comprar os conjuntos na loja El Corte Inglês (uma loja de departamentos), já que as lojas de brinquedos sumiram. Seguem imagens.

Visita ao Carlos Nebot

Uma visita de colecionador a Barcelona não é completa se não incluir uma visita à coleção do Carlos Nebot. Passei um domingo na sua casa, com direito a papo, vinho, churrasco e algumas (ótimas) compras. Seguem imagens:

Um trabalho artesanal do Carlos:

Diversas:

Bem, este foi um resumo de uma rápida passagem por Barcelona. Espero voltar com mais uma atualização no início de maio.

Até lá!

Marcos Guazzelli

Abril de 2014





Comentários

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De: Tadeu T. Mahfud
Impressionante, estas historias são fantásticas. A coleção do Nebot é sempre uma atração a parte, magnífica e maravilhosa como sempre. Abs.


De: RAUL
MAIS UM EXCELENTE ARTIGO!PARABÉNS GUAZZELLI!


De: GILMAR REDE
Muito bom este texto, só de saber que um sócio da Comanche esta vido e pôde detalhar informações como estas não tem preço, parabéns Marcos.


De: Rovilson Raimundo
Bem interessante a história do sr. josé Garcia, mas o que notei mesmo, foi como, naquela época, não se tinha importância, a questão da licença, do "Copyright" (direito autoral), realmente não existia, ou não era levado a sério, assim, como este senhor, trouxe as figuras do Lawrence da Arábia e simplesmente começou a copiar, com certeza, Os Lavin fizeram a mesma coisa com as figuras de faroeste, a TROL e a Comanche compraram figuras da Casablanca no Mercado e as copiaram também, suponho que a Casablanca não entrou na justiça porque ela também deveria pagar por isso, acho que hoje em dia, a Gulliver não tem interesse em voltar a fabricar essas figuras novamente, pois com certeza teria sérios problemas legais com as licenças e com as empresas, cuja as quais, copiou no passado, tenho certeza que os moldes ainda estão com a Gulliver, ou alguém acredita que os moldes se perderam com o tempo?


De: Fábio Deschamps
Saudações Marcos! Incrível seu trabalho de investigação, conseguir encontrar José Garcia depois de tantos anos, parabéns. E a coleção de Carlos Nebot é fantástica, rivaliza com a sua. Grande abraço!


De: cassiano olegario
Extremamente importante o artigo com o José Garcia, aos poucos a gente vai descobrindo a real história sobre os brinquedos produzidos no País, sem falar que a narrativa e´uma verdadeira viagem no tempo!! Gostei bastante!!!!!


De: Tadeu Buono
Será , que vc , Marcos , uma pessoa viajada , não conhece em algum lugar alguém que se interesse em produzir novamente estas maravilhas esquecidas , infelizmente ? lançamento de todas elas , pois tenho certeza de que haverá público comprador . Parabéns pelas matérias , e até breve , um forte abraço !!!


De: Jean Carlos
Prezado Guazzelli, excelente artigo! Quando a gente pensa que não existem mais informações e detalhes possíveis de serem descobertos, você surpreende e apresenta mais uma peça do quebra-cabeças. Conseguir localizar o sr. José Garcia Francos foi algo digno de Sherlock Holmes, parabéns! Agora, fica a pergunta: já que aparentemente o sr. José não raspou os cofres da Comanche, qual foi o motivo real do fechamento da empresa? Um grande abraço!


De: Cleso Brito
Muito legal a matéria com José Garcia Francos! As histórias vão se fechando. Uma pena as lojas de brinquedos na rua de Barcelona estarem fechando. A coleção do Carlos Nebot é espetacular! Abraço Marcos.


De: Anibal Cristiano Haddad
Excelente reportagem investigativa Marcos, só por curiosidade! como conseguiu achar o sr. X? Forte Abraço e continue firme com o BF. Aguardamos mais coisas para maio.