GETTYSBURG 4



Nos seus últimos anos de vida Dercy Gonçalves levava um susto toda manhã ao acordar: “nossa, eu ainda estou viva...”. Eu também me assusto seguidamente: “nossa, o que estou fazendo aqui neste louco século XXI, que nada tem a ver comigo?”. Me sinto como alguém que passou 30 ou 40 anos congelado, e de repente acordou aqui no meio desta loucura. Eu não gosto de funk. Eu não gosto de rap. Eu não gosto de sertanejo universitário. Eu gosto de Edith Piaf, gosto de Los Panchos, e gosto até de Jane e Herondy...

Mas chega de divagação, vamos ao assunto do texto.

Em maio do ano passado informei aos leitores que em 2013 não iria na feira de Gettysburg, privilegiaria a feira de Chicago (que ocorre em setembro). De fato, estarei cobrindo a feira de Chicago para o site, mas à medida em que abril se aproximava foi me dando uma saudade de Gettysburg, uma vontade de estar lá ... e acabamos decidindo embarcar.

A feira deste ano ocorreu dia 28 de abril (em 2014 será dia 27 de abril). Como viajamos para os Estados Unidos no dia 19/4, tínhamos alguns dias livres antes da feira, e viajamos para a Califórnia para, entre outras coisas, visitar o Corriganville Park.

Um pouco de história (parte dela já contada no artigo As Aventuras de Rin Tin Tin):

O então Corriganville Movie Ranch era um local para a filmagem de externas de diversos filmes e seriados, principalmente de faroeste. Pertencia ao ator e dublê Ray Crash (imagem abaixo):



Alguns dos seriados gravados no rancho foram As Aventuras de Rin Tin Tin, Lone Ranger (para nós, Zorro) e Jornada nas Estrelas. Segundo a Wikipédia, não existe uma lista completa de filmes e episódios de seriados filmados no rancho, mas as estimativas vão desde algumas centenas até milhares.

O rancho (hoje parque) fica em Simi Valley, a cerca de 50 quilômetros ao norte de Los Angeles.

As principais construções fixas do rancho eram uma cidade do velho oeste (Silver Town), o Forte Apache, uma vila Mexicana e um lago artificial de concreto. Falarei mais sobre estas estruturas adiante.

Entre 1949 e 1965 o rancho era aberto ao público nos fins de semana e nos feriados (o ingresso custava 1 dólar). Os turistas podiam se divertir nos cenários, andar a cavalo, assistir duelos de faroeste, rodeios, e de vez em quando até encontravam uma estrela de Hollywood.

Em 1965 o rancho foi vendido para o comediante Bob Hope (considerado a personalidade do século XX em Hollywood), e ele logo separou uma parte da área para realização de construção civil. Desmanchou o Forte Apache em 1967, e o que sobrou das demais estruturas foi destruído por um incêndio nos anos 70. O último filme que utilizou o rancho como locação foi feito em 1976.

Em 1988, como a construção de condomínios residenciais ameaçava tomar toda a área do rancho, a prefeitura de Simi Valley adquiriu o que sobrava de terra e transformou no Corriganville Regional Park, aberto permanentemente ao público, sem cobrança de ingresso. O endereço é 7001, Smith Road, Simi Valley.

A imagem abaixo é uma vista aérea do rancho, da época em que ainda estava ativo nas filmagens. Silvertown está quase na base da imagem, à esquerda, enquanto que o Forte Apache aparece um pouco acima da cidade. Entre os dois, restos da vila Mexicana.



Fico aqui imaginando o paraíso que era este local durante os anos cinquenta.

O Forte Apache foi construído em 1947, para ser cenário do filme Fort Apache (Sangue de Heróis) de John Ford, com Henry Fonda e John Wayne. A partir daí, até 1967, foi utilizado como cenário para uma infinidade de filmes, incluindo toda a série As Aventuras de Rin Tin Tin.

A seguir algumas imagens que obtive na internet:

A imagem abaixo é do filme “Emboscada”, de 1949:



A imagem abaixo é do filme “A Fera de Forte Bravo”, de 1954:



Um visitante do parque tentou fotografar locais no mesmo ângulo em que foram feitas cenas de filmes. Não é tarefa fácil. A conformação da paisagem nunca é exatamente a mesma, pois entre as imagens dos filmes e as fotos atuais há décadas de erosão, ação do vento, crescimento da vegetação, etc. Mas seguem quatro imagens do trabalho deste visitante:









Outras imagens do antigo forte:








Abaixo uma imagem do forte num estilo diferente, de pedra. Não consegui saber em que filme o forte aparece assim. Como em cinema tudo é de mentira, ao fundo permanece a paliçada de madeira que era a frente utilizada no seriado Rin Tin Tin, ou seja, é provável que ao mesmo tempo o forte tenha sido de madeira numa produção e de pedra em outra.



Um dos filmes que melhor mostra as paisagens de Corriganville e o Forte Apache é Rebelião de Bravos. Neste filme Joe Sawyer faz o papel de um sargento da cavalaria, papel que viria a repetir em As aventuras de Rin Tin Tin, como Sargento Ohara. Muitas cenas deste filme foram repetidamente usadas nos episódios de Rin Tin Tin. O Gibiseiro possui o filme para venda, e o link está no artigo Diversos – Março de 2013.

Abaixo uma imagem de Silver Town, cenário de uma quantidade enorme de filmes (onde ela aparecia com vários nomes – Tombstone, Dodge City, etc.). Parece que a foto é de um fim de semana, quando o rancho estava aberto ao público.



Enfim, se existe um lugar que realmente merece estar nos anais da história do cinema americano é o Corriganville Movie Ranch. Infelizmente as estruturas não foram preservadas, e como o acesso ao parque é gratuito creio que não exista dinheiro para melhorias. Após a visita fiquei com impressão de que o espaço poderia ser muito melhor aproveitado: a) algumas estruturas (poucas) poderiam ser reerguidas como eram na época, b) ao longo do parque poderia ter mais informação sobre os filmes que ali foram produzidos, cenas famosas, etc., c) por fim é um pecado que um lugar desses não tenha uma loja de souvenirs ligados ao cinema antigo.

Estivemos lá num dia ensolarado e muito quente da Califórnia. Na entrada do parque cartazes recomendam tomar cuidado com cobras cascavéis, leões da montanha e coyotes. Felizmente não encontramos nenhum deles no passeio...



Bela camisa.

Mas, voltando ao assunto, o primeiro ponto pelo qual passamos é um tanque de concreto que era usado como rio ou lago em filmes. O tanque possuía estrutura que permitia filmagem de cenas embaixo da água. Apesar de abandonado há décadas ainda está em razoável estado. Alguns dos  muitos filmes que usaram este tanque foram Jim das Selvas, a Rainha Africana e O Monstro da Lagoa Negra.






De algumas estruturas restaram as fundações:




Resquícios de parede só sobraram no local onde ficavam os estábulos de cavalos, que era anexo a Silver Town.


Da vila Mexicana só sobrou a imagem abaixo, colada numa placa:



Chegamos ao local do Forte Apache:






Louco de pedra?

Este local marcou muito minha vida, através dos filmes e dos seriados. Na imagem abaixo, pego um pouco do solo do local onde ficava o Forte Apache para trazer para casa. É caso de internação?



Nas imagens abaixo uma vista aérea (de cima do morro...) e uma lateral do local onde ficava Silver Town.





Por fim, um desenho que só está aqui porque achei bonito:



Segundo a biografia da família Rin Tin Tin (imagem abaixo), Lee Duncan (proprietário) e o primeiro Rin Tin Tin gostavam de viajar para uma região da Califórnia denominada Sierras. Lá acampavam e ficavam alguns dias isolados do mundo, só curtindo a natureza.



Então lá fomos nós, conhecer as Sierras. Há dois locais que são lindos, o Yosemite National Park e o Parque das Sequoias. As Sequoias são os maiores seres vivos do planeta. Seguem duas imagens desses locais:

 





Na sexta-feira, dia 26, viajamos para Gettysburg, onde chegamos à noite. No início de julho serão celebrados os 150 anos da batalha de Gettyrburg. Muitas festividades ocorrerão, a batalha será reencenada com milhares de participantes. Uma pena não poder estar lá. Se algum leitor for, manda uma foto para o site.

A cidade é toda dedicada à história. Logo na frente do nosso hotel havia duas famílias acampadas, como no século XIX:







Como a feira era só no domingo, dedicamos o sábado à peregrinação pelo comércio local. Percebo em diversas partes dos Estados Unidos um processo de decadência econômica. Talvez os americanos não se deem conta disso, afinal o processo acontece muito lentamente. Mas quem vai lá uma vez por ano, ou a cada dois anos, percebe que os EUA estão gradativamente ficando mais parecidos com seus vizinhos latinoamericanos. Como admirador da história de sucesso dos EUA, fico muito triste ao ver isto acontecendo. Mas, na história da humanidade o comum, a regra, é o fracasso. O sucesso é raro e, na maioria das vezes, passageiro. Assim, algumas lojas que existiam há anos em Gettysburg já não estavam mais lá, encerraram suas atividades. Contei pelo menos três lojas que eu gostava, e que não existem mais. Numa outra loja entrei, escolhi alguns produtos e fui para o caixa, que fica numa sala ao lado. Fiquei lá esperando um tempão, até que a proprietária apareceu para me cobrar. Quando me viu no caixa, esperando, ela pediu mil desculpas, e disse que é tão raro alguém entrar para comprar alguma coisa na loja dela que ela nem vai mais ao caixa.

Muito triste.

Mas, deixando a tristeza um pouco de lado, visitamos as lojas que ainda estão lá (pelo menos por enquanto). Em Gettysburg há diversas lojas em que é possível comprar uniformes completos, tanto do exército do norte quanto do sul. Também é possível comprar as armas (pena que não podemos trazer).

Abaixo, duas imagens da loja Regimental Quartermaster, uma das que possui maior sortimento de roupas. A Regimental era a segunda maior loja de uniformes, mas a primeira encerrou suas atividades no fim de 2012.





A loja da imagem abaixo é de roupas para senhoras. Roupas do século XIX, claro.


Por fim, a lojas especializadas somente em chapéus. Eu gostei muito do chapéu da imagem abaixo:



Passamos pela Toy Soldier Shop. Em 2012 eu fiquei preocupado, pois a loja estava com sinais de que ia mal, com muitas prateleiras vazias. Fiquei com receio que fechassem as portas. Mas este ano parece estar tudo bem, as prateleiras estavam abarrotadas de produtos. Seguem algumas imagens:

















Também passamos pela Antique Shop, que sempre possui um acervo imenso de figuras. Seguem algumas imagens:













Achei muito interessantes as figuras da Del Prado, essenciais para qualquer cidade do oeste:



Abaixo a imagem das figuras que eu comprei, juiz, pregador, assaltante, touro sentado, trabalhador chinês, barman, jornalista, caçador e mexicano.



Se algumas lojas fecharam, pelo menos uma nova surgiu, a loja denominada For The Historian, imagem abaixo:



Domingo, dia 28, foi o grande dia da feira. Sempre realizada no tradicional Gettysburg Hotel, estava muito boa, com muitos expositores e bastante variedade de produtos. Seguem algumas imagens:





































Abaixo uma panorâmica da feira:



Ops, errei de foto. Segue a correta:



Seguem mais algumas imagens da feira:









Esta é antiga, e é a precursora das fogueiras lançadas pela Casablanca e pela Gulliver:



Mais imagens, com vários Elastolins da década de 1950:



















Enfim, estava tudo muito bom, e voltei de viagem carregado. Agora temos que trabalhar para tentar juntar um dinheirinho para, quem sabe, poder ir na feira de 2014.

Para finalizar, uma imagem das Marx Beauties, figuras femininas que Louis Marx enviava como brinde para os distribuidores dos seus produtos:



Até a próxima!

Marcos Guazzelli

Maio de 2013





Comentários

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De: Tadeu Mahfud
Parabéns e obrigado por sempre compartilhar tanta emoção conosco Guazelli. Realmente eu tento me transportar para lá somente fechando os olhos e imaginando as imagens que vc posta por aqui. Eu preciso ir urgente e me deliciar nas compras de figuras nestes locais...Abs


De: Cleso Brito
É sempre bom viajar junto com o Guazzelli nos seus artigos. E que passeio legal foi esse! Obrigado! Quanto aos brinquedos: sem comentários. Se lá estão decadentes nós estamos o que em relação a brinquedos e memória histórica?


De: marcos faria/angra
o espaço é pequeno para descrever estas maravilhas e historias fantasticas quisera poder retribuir a altura sua generosidade e iniciativa compartilhando conosco tudo isto. Muito obrigado.


De: Juninho Maia
Sem comentários, é de deixar doido!