HISTÓRIA, DOCUMENTOS, INTERROGAÇÕES



Imaginem, leitores, como seria fácil o trabalho dos historiadores se pudessem conversar com pessoas que participaram da história que estão estudando, pesquisando. Mas, via de regra, não é isto que ocorre. A história é, na maioria das vezes, escrita décadas, séculos ou milênios após os fatos, quando não existem mais testemunhas oculares. Resta aos historiadores se debruçarem sobre documentos antigos e tentarem compreender o passado.

No caso da história dos brinquedos de faroeste no Brasil, vivemos uma situação atípica – um dos pioneiros, fundador da Casablanca, detentor da patente do Forte Apache, ainda está vivo e saudável. Mas como a hipótese de nos atender e contar sua história não é sequer considerada, resta-nos debruçarmo-nos sobre documentos para tentar reconstruir esta história.

Um comentário recente de um leitor diz que meus textos estão amargos. Talvez não estejam amargos, mas com um pouco de tristeza, pois imaginei este site como uma espécie de cooperativa de informações, mas, como recebo pouco material dos colecionadores, o site acaba ficando muito centrado na minha pessoa. Contudo, o material para o presente texto foi quase que integralmente obtido e fornecido pelo colecionador Gilmar Rede que, imagino, dedicou muito do seu tempo à garimpagem. Assim, este texto realiza o que eu ambicionava, ou seja, pessoas se unindo e se dedicando para tentarmos produzir para o site a melhor informação possível. E temos a obrigação de produzir a melhor informação possível pois, no futuro, daqui muitos anos, talvez este site seja uma das únicas referências históricas sobre a trajetória dos brinquedos de faroeste no Brasil, e dos seus fabricantes.

Trataremos aqui da história da Casablanca. Parece que quanto mais conhecemos a história desta empresa, mais dúvidas surgem. Assim, ao longo do texto, a cada informação apresentarei novas interrogações.

Tomei a liberdade de excluir da publicação documentos que pudessem, eventualmente, constranger pessoas que participaram da história da empresa.

Foi num dia de março de 2013 que recebi do Gilmar a informação de que ele havia conseguido o contrato social da Casablanca. Fiquei excitado, pois há muito eu ambicionava ter este documento. Recebido o documento, que não é longo – apenas duas páginas e 9 artigos, me dediquei à sua leitura.

O contrato social vai abaixo, publicado como imagem. Não sei se na publicação aparecerá legível.

 

O contrato social basicamente trás informações que já tínhamos, ou seja, a sociedade foi constituída com três sócios – Francisco Ortega Blanco (falecido), Mariano Lavin Ortiz (falecido) e Andrés Luis Lavin Cebada. O capital social total era de R$60 milhões de cruzeiros, divididos em 60 mil cotas no valor de Cr$1.000 cada. Cada sócio possuía 20 mil de cotas.

No entanto, ao final do documento surge a primeira grande surpresa – a data de constituição da empresa: 5 de janeiro de 1966. Se a Casablanca foi fundada em 1966, qual empresa produziu e comercializou o Forte Apache durante os anos de 1964 e 1965?

Mais uma vez o Gilmar vem em nosso socorro e me indica o seguinte blog:
http://soldaditossudamericanos.blogspot.com.br/search/label/%28A%29%20Brasil

E fico estarrecido – como um blog estrangeiro pode ter tantas informações, informações que nós, colecionadores Brasileiros, não temos? Qual sua fonte de informações?

Segundo o tal blog, em 1964 e 1965 os três sócios utilizaram a empresa Ortega, Lavin & Cia Ltda. Para a produção do Forte Apache, localizada à Rua do Oratório, 2.447.

Nunca, mas nunca mesmo, eu havia ouvido de ninguém, nem do filho do Francisco Ortega Blanco, nem dos colecionadores mais antigos, que havia existido uma empresa antes da Casablanca.

Quanto ao endereço, o Sr. X (artigo Fragmentos da História) havia nos informado que a localização na rua Madre de Deus havia sido a segunda da empresa, que havia um endereço anterior. Agora sabemos onde era o endereço anterior.

Segundo o blog, em janeiro de 1966 esta empresa mudou sua razão social para Casablanca. Isto não é verdade. O contrato social da Casablanca deixa claro que se trata de uma nova empresa, fundada em janeiro de 1966. Não se trata da nova razão social de uma empresa já existente.

Assim, surge uma grande interrogação – se o Forte Apache foi um estrondoso sucesso de vendas em 1964 e 1965 o que levou os sócios a abandonarem a empresa que estava fazendo tanto sucesso e começar uma nova (Casablanca), do zero? Se queriam apenas usar um outro nome, por que simplesmente não mudaram o nome da empresa existente? Mistério do grosso...espero que o Gilmar, nas suas garimpagens, consiga o contrato social de Ortega, Lavin & Cia Ltda. Já pesquisei esta empresa no Google, e apareceram referências em diários oficiais dos anos 60. Assim que tiver um tempo, me dedicarei a pesquisar esses diários oficiais.


Ao longo de sua curta existência a Casablanca teve apenas uma alteração de contrato social – foi feita em 19 de agosto de 1966, para a criação de uma filial no estado da Guanabara, na rua da Assembleia, 45, 10º andar. Segue abaixo a imagem da alteração de contrato. Se sair legível os leitores perceberão que o sócio Andrés Luis já usava uma nova assinatura, diferente daquela que constou do contrato social em janeiro de 1966 (acima).

Aqui surge outra interrogação – se Francisco Ortega Blanco deixou a sociedade em 1968, como confirma seu filho, e foi trabalhar na Trol, por que os sócios (tanto os que ficaram quanto os que saíram) nunca se preocuparam em fazer a alteração contratual para formalizar a saída do sócio? Veremos à frente que a Casablanca começou a ir de mal a pior, até que acabou tendo sua falência decretada. Como pode Francisco não ter se preocupado em tirar seu nome de uma sociedade que caminhava para o buraco e da qual não era mais sócio? Pela documentação, pelo menos no papel, Francisco permaneceu como sócio até a falência da empresa e assim, provavelmente, também recebeu as sanções aplicáveis a sócios de empresas falidas.

Segundo o blog que estamos usando como referência, Casablanca e Comanche iniciaram uma verdadeira guerra de pedidos de marcas. Isto eu pude confirmar nas cópias que possuo dos diários oficiais da época.

A Casablanca atacou pesado, e na edição de 2 de junho de 1968 saía no Estado de São Paulo a seguinte publicação:

Possivelmente isto representou o fim da produção e da comercialização do Fort Comanche. É possível que a Comanche tenha continuado suas atividades ainda por algum tempo, com outros produtos, mas, provavelmente, sem o forte.

Ao final da publicação a Casablanca dá uma lição de moral, que reproduzo: “...além de colaborarem com uma forma de concorrência desleal e aventureira, que compromete todos os princípios do comércio estabelecido.”. Apenas para fins de constatação de um fato histórico, as figuras produzidas e comercializadas pela Casablanca também eram cópias, só que de fabricantes Espanhóis e Alemães.

Segundo o blog acima referido, em 1968 (mesmo ano da saída do sócio Francisco Ortega Blanco) começam os problemas financeiros da Casablanca (embora seus produtos seguissem sendo um sucesso de vendas). A empresa passa a responder a dezenas de processos por dívidas não pagas.

Em 21 de dezembro de 1968 (sábado) ocorreu o incêndio na Casablanca, e na página 34 da edição de 22 de dezembro o Estado de São Paulo publicou a seguinte nota:

O horário do incêndio coincide com a informação que o Sr. X (fragmentos da história) havia nos passado. Segundo ele, o no momento em que se iniciou o incêndio o Sr. Mariano oferecia um churrasco para amigos na fábrica.

Em 21 de dezembro toda a produção para as vendas de Natal já estava há tempos nas lojas, ou seja, o estoque da Casablanca deveria estar bem baixo, logo, havia menos material para queimar.

Lendo a notícia do Estadão, fico com as seguintes dúvidas:

- Imprensa adora tragédias, e incêndios são um prato cheio. Se o incêndio foi de proporções tão grandes, como noticiado, por que os órgãos de imprensa não enviaram para lá equipes de reportagem e fotógrafos?

- Se o incêndio foi de proporções tão grandes, como o prédio ocupado pela Casablanca à época esta lá até hoje, intacto?

Em função do incêndio, ou dos problemas financeiros – não sabemos, o fato é que quando decretação da falência da Casablanca, em 14 de outubro de 1970, ela não estava mais localizada no endereço da rua Madre de Deus. Estava na Rua Terezina, 144, Vila Bertioga. Interessante notar que não encontramos alteração do contrato social formalizando a mudança de endereço da Casablanca.

O documento abaixo (não sei se estará legível na publicação) possui data de 12 de novembro de 1970 e confirma que formalmente (no papel) Francisco Ortega Blanco ainda fazia parte do quadro societário da Casablanca.

 



Segundo o blog que estou utilizando como fonte, em novembro de 1969 (o mês em que nasci) uma injetora de plástico Plastomec e duas injetoras Joflex da Casablanca foram arrestadas e leiloadas para pagar credores. Sem os equipamentos, a Casablanca paralisa suas operações, até a decretação da falência, em outubro de 1970.

Em outubro de 1969, um mês antes do fim das operações da Casablanca, foi constituída a Gulliver, tendo como sócios Mariano Lavin Cebada (filho do Mariano Lavin Ortis) e sua esposa Ana Exposito Cantero. Nenhum dos dois era sócio da Casablanca. Andrés Luis passaria a integrar (formalmente) a sociedade após resolver seus problemas com a falência da Casablanca.

Apesar do arresto das máquinas injetoras, de algum modo os moldes da Casablanca foram transferidos para a Gulliver, e prova disso são as figuras que possuem na sua base a inscrição “gullivera”, ou seja, figuras que foram produzidas pela Gulliver em moldes da Casablanca, mas onde esqueceram de apagar o “a” de Casablanca do molde.

Outros moldes foram para a Trol, e lá as figuras saíam com “Casablanca” inteiro na base. Minha tese para isso, já publicada no site, é de que Francisco Ortega Blanco recebeu alguns moldes em pagamento por sua saída da Casablanca e passou a utilizá-los na Trol, onde era diretor.

Enfim, entre tantas interrogações que ficam, deixo uma final – Por qual razão a Gulliver não participou da Abrin 2013, a maior e mais tradicional feira da indústria de brinquedos no Brasil?

Seguimos na busca de informações.

Até a próxima!

Marcos Guazzelli
Maio de 2013





Comentários

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De:
Meu caro, porque a Gulliver está quebrada.


De:
Meu caro, porque a Gulliver está quebrada.


De: Diego M. Lascano
Hola Marcos, te escribe el autor del blog "Soldados de juguete fabricados en América del Sur y México" al que haces referencia en tu interesante artículo. Las fuentes utilizadas para la investigación sobre "Ortega, Lavín e Cia", "Casablanca" y "Gulliver" son el "Diário Oficial do Estado de São Paulo" y el "Diário Oficial da União" (período 1964-1973). Por otro lado, ya está corregido el error acerca de la creación de "Casablanca" como una nueva sociedad en enero de 1966. Gracias por compartir la valiosísima documentación de Gilmar Rede y la tuya. Saludos desde Uruguay!


De: Diego M. Lascano
Hola Marcos, te escribe el autor del blog "Soldados de juguete fabricados en América del Sur y México" al que haces referencia en tu interesante artículo. Las fuentes utilizadas para la investigación sobre "Ortega, Lavín e Cia", "Casablanca" y "Gulliver" son el "Diário Oficial do Estado de São Paulo" y el "Diário Oficial da União" (período 1964-1973). Por otro lado, ya está corregido el error acerca de la creación de "Casablanca" como una nueva sociedad en enero de 1966. Gracias por compartir la valiosísima documentación de Gilmar Rede y la tuya. Saludos desde Uruguay!


De: Mazzei
Impressionante matéria de cunho jornalístico. Parabéns a ambos. Lá na frente, com certeza serão lembrados e citados por colecionadores como nós.


De: Dinilson
Excelente. O material, fruto do trabalho de investigação de vocês, daria um livro e muito bem escrito e documentado. Isso para não falar em dissertação de Mestrado ou Tese Doutoral (história empresarial ou algo afim).


De: Gilmar
Marcos, o texto ficou maravilhoso, e continuamos com as pesquisas.


De: Cleso Brito
Ótimo artigo, cheio de questionamentos interessantes. Parabéns Guazzelli e Gilmar Rede pelo trabalho investigativo. Espero que tenhamos respostas em breve.