EDIÇÃO EXTRA - O TRISTE FIM DA CASABLANCA



Leitores,

Como sabem, vivo tentando reconstruir a história dos brinquedos de faroeste no Brasil, e das empresas que o produziram. O fim da Casablanca (que foi um sucesso) sempre instigou a minha curiosidade. Até janeiro deste ano eu possuía uma explicação que parecia razoável para este fim – os sócios haviam se desentendido e decidiram por encerrar as atividades da empresa. Um dos sócios pretendeu continuar produzindo o Forte Apache e criou uma nova empresa para tanto, e todos os leitores sabem qual foi a nova empresa.

No entanto, quando me encontrei em São Paulo com o filho do Francisco Ortega Branco, ele me informou que seu pai deixou a sociedade em 1968 vendendo sua parte no negócio para os demais sócios. Esta informação me deixou confuso. Se o sócio com o qual havia desentendimentos deixou a sociedade, qual a razão para encerrar uma empresa que já era conhecida no país todo, com sucesso, e se aventurar com uma nova empresa, totalmente desconhecida do público consumidor? Que estratégia empresarial poderia haver por traz desta decisão aparentemente sem sentido?

Bem, com a curiosidade aguçada dediquei algumas horas do meu tempo a tentar descobrir na internet o que efetivamente aconteceu com a Casablanca. E descobri.

Vou me limitar a narrar fatos, não vou entrar no terreno do exercício de julgamentos.

A partir do final de 1969 a nova empresa entra em operação, utilizando os moldes da antiga Casablanca (ver texto “Mistério”, neste site) e dando continuidade basicamente à mesma linha de produtos que a Casablanca produzia, incluindo seu carro chefe, o Forte Apache.

A partir do ano 1970 eu identifiquei no Diário Oficial do Estado de São Paulo pedidos de falência da Casablanca. Na página 86 do Diário Oficial do Estado de São Paulo de 26 de outubro de 1972 está apresentado o Quadro Geral de Credores da falência de Indústria de Brinquedos Casablanca Ltda. Abaixo a imagem do referido Diário Oficial:

O total de dívidas da empresa era de Cr$705.042,33, dos quais 98% eram com o poder público, demonstrando que houve preocupação em saldar débitos com credores privados antes do processo de falência.

Para ter uma idéia de quanto seria este valor hoje, realizei dois cálculos de atualização:

O primeiro cálculo foi realizado no site WWW.calculoexato.com.br , com atualização pelo IGP-DI, e resultou em R$1.912.492,39.

No segundo cálculo utilizei o “Fator Mônica”, ou seja, dividi a quantidade de Cr$ da dívida pelo preço de um exemplar da revista Mônica daquela época, e multipliquei pelo valor atual da revista. Neste caso, cheguei a um valor de aproximadamente R$2.350.000,00.

Desta forma, é possível concluir que a falência da Casablanca foi decretada por uma dívida que, em valores atuais, estaria na faixa de R$2 milhões.

Então foi este o fim da grande Casablanca – a falência. Sem dúvida um fim melancólico para uma empresa que marcou toda uma geração de Brasileiros. E que deixou tanta saudade. E que só segue existindo na nossa memória porque insistimos em não esquecê-la.

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Fevereiro de 2012





Comentários

Enviar comentario

De: Luiz Paulo Pizzutti - SP
Essa é realmente a versão histórica que eu conhecia, inclusive com a adição de um certo incêndio misterioso nas instalações. A Casablanca não foi a única a trilhar este caminho fruto de má administração e dívidas fiscais. Outra, outrora maior indústria de brinquedos do país seguiu caminho semelhante. E a sucessora se bobear ... Nós adoradores daqueles anos de Casablanca talvez nos sintamos melhor,imaginando um final mais romântico para ela, mas o fato é que maus administradores aliados ao massacre de impostos pelo governo e a concorrência dos importados e da internet, tem liquidado grandes indústrias e redes de varejo do ramo. Uma lástima !


De: David Finamor
Creio eu q acabou por que na msma época lançaram a jornada nas estrelas! Ai passaram a comprar as naves e o forte apache ficou de lado! Concorrência,alta produção e pouca venda resultaram nisso


De: Marcos Faria / Angra
Tudo tem seu tempo, muitos fabricantes famosos e conhecidos ainda hoje tem falencia decretada. Talvez se os governos tivessem uma participação maior que NÃO fosse cobrar impostos aviltantes, salarios exorbitantes para vereadores etc, esta roubalheira em geral, falcatruas, sobre tudo corrupção em geral tão inerentes a historia politica brasileira e de outras nações, ajudando Empresas idoneas, estas poderiam sobreviver e adaptar-se adias atuais e suas crescentes e rapidas exigencias e constantes avanços tecnologicos. Marcos parabéns pela pesquisa, nos resta manter vivos os briquedos e nossa historia. Bom carater e educação é a causa e remedio de e para tudo.


De: Tadeu Mahfud
Concordo com o comentário do Campanella. Apesar de eu ter nascido já na era Gulliver, sou de 1973, mesmo os kits Gulliver eram bem caros. Eu tive sorte te ter sido de familia classe média e tive meus brinquedos de faroeste...mas eram bem caro...não se podia comprar assim a revelia não..Maravilha de informação e tempo de pesquisa Guazelli. Obrigado.


De: marco campanella
nao vamos ver apenas com os nossos olhos.na verdade como me lembro,os brinquedos forte apache,nao eram nada baratos naquela época,e nem muito populares,os fortes completos,apenas uma minoria abastada que os tinha.na cidade que eu morava na época(uns vinte mil habitantes)era só o filho do prefeito e do médido da familha que tinha,a criançada nao tinha muito acesso,e olha que o meu pai era fiscal do estado,eu devia ter uns dez avulsos e olhe lá,ganhava só no aniversário e no natal.eram outros tempos os idos dos anos 60.


De: João Luiz
Estranho mesmo, parece um valor baixo face ao fluxo de vendas, valor da marca/patrimônio que deveria ter e ainda o fato do incêdio misterioso.Mas legal a matéria por estes outras questões que enseja.


De: márcio de souza
Perfeito! um primor de pesquisa e dedução. Restaria ainda saber o que causou a falência de uma empresa que parecia tão próspera: altos custos de produção, concorrência, dívidas trabalhistas, má gestão ou política econômica do governo, etc.