FRANCISCO ORTEGA BLANCO



O leitor deveria ler antes o artigo “Fragmentos da História”, publicado em setembro de 2010. Foi durante a pesquisa para elaboração daquele texto que soubemos, pela primeira vez, da existência de um personagem chamado Ortega na história da Casablanca. Até então havia sido a primeira e única vez na qual este personagem havia sido mencionado.

Em 23 de janeiro de 2012 me reuni no Hotel Renaissance em São Paulo com Alexandre Ortega Blanco, que vem a ser filho do Ortega que participou da formação da Casablanca.

Fiquei sabendo então que o nome completo do seu pai era Francisco Ortega Blanco, e que seu último sobrenome influenciou na formação do nome da empresa – Casablanca.

Ortega era imigrante Espanhol (como os integrantes da família Lavin) e, segundo seu filho, possuía um imenso talento para o comércio. No Brasil ele iniciou a vida como caixeiro viajante. Viajava pelo país comercializando tecidos. Mais tarde se estabeleceu com duas lojas de tecidos no Brás, em São Paulo. Era muito conhecido e apreciado no meio empresarial em São Paulo.

No início dos anos 60 Ortega já conhecia o Sr. Mariano Lavin, pois era freqüentador do seu estabelecimento, onde integrantes da colônia espanhola se encontravam para comer e conversar.

Em uma oportunidade o Sr. Mariano Lavin mostrou os brinquedos que havia trazido da Espanha. O Ortega percebeu ali uma ótima oportunidade comercial.

De alguma forma os futuros novos sócios conseguiram montar um protótipo do que seria o primeiro Forte Apache feito no Brasil. Ortega colocou a caixa do único Forte Apache existente embaixo do braço e saiu para avaliar o potencial comercial do produto. O Alexandre não sabe precisar se a primeira rede de lojas visitada por seu pai foi a Mesbla ou o Mappin. Contudo, seu pai lhe contou que a história transcorreu assim:

Ortega – “Eu tenho aqui um produto novo e gostaria de saber se sua loja tem interesse em adquiri-lo.”

Comprador – “É um produto muito bom, temos interesse sim.”

Ortega – “Quantas unidades sua loja teria interesse em comprar?”

Comprador – “Quantas unidades sua empresa possui para fornecer?” (o comprador não imaginava que aquela unidade que examinava era a única existente...)

Ortega – “Na verdade eu quero saber quantas unidades vocês desejam comprar, independentemente da quantidade que tenho em estoque.”

Comprador – “Bem, poderíamos fazer um pedido inicial de mil unidades.”

Eu imagino como ficou a cabeça do Ortega ao receber esta informação. E imagino como foi o encontro com o Sr. Mariano Lavin para contar a novidade.

O fato é que a partir dali as coisas aconteceram em ritmo alucinado. O Ortega vendeu suas duas lojas do Brás, para ter recursos para montar a Casablanca. Ele foi o sócio capitalista. O Sr. Lavin e seu filho Luis entraram na sociedade com a idéia.

A Casablanca, como sabemos, foi um sucesso estrondoso, e produziu muitos lucros para os três sócios.

Segundo o Alexandre, seu pai era responsável pela área Comercial da Casablanca. O Sr. Lavin cuidava da parte industrial, e o Luis Lavin cuidava da Administração e do desenvolvimento de produtos.

Segundo o Alexandre seu pai era um excelente vendedor, capaz de vender qualquer coisa. Era também muito simpático e um tremendo contador de histórias. Era daquelas figuras que quando entra num ambiente acaba reunindo todos à sua volta para ouvir suas histórias. Mas não era um bom administrador. Segundo o Alexandre, o único sócio que possuía o perfil de administrador era o Luis Lavin (depois fundador e presidente da Gulliver).

Desta forma, começou a haver um processo de desgaste entre os sócios, sendo o Luis o mais contido, mais planejador, e o Ortega, e o próprio Sr. Mariano, mais românticos, mais sonhadores. As divergências eram quanto a investimentos, lançamento de produtos, marketing, estratégia, condução dos negócios, etc.

O Alexandre confirma o incêndio da Casablanca, mas informa que o seguro cobriu os prejuízos.

O fato é que os sócios chegaram a um consenso de que não era possível manter a sociedade, em função dos crescentes atritos. Eu acreditava que eles haviam simplesmente dissolvido a Casablanca mas, segundo o Alexandre, seu pai vendeu sua parte na sociedade para o Sr. Mariano e para o Luis Lavin em 1968. Desta forma, permanece sendo um mistério a razão pela qual a Casablanca foi dissolvida em 1969 para a criação de uma nova empresa, a Gulliver.

Segundo o Alexandre, os sócios da Casablanca receberam uma proposta firme de compra da Estrela. A Estrela compraria o controle acionário, mas manteria a Casablanca como unidade independente, e o Ortega seria o presidente da unidade. Os sócios decidiram recusar a proposta. O Alexandre informa que esta recusa foi um dos grandes arrependimentos do seu pai.

Questionei o Alexandre quanto a fotografias da época da Casablanca, por exemplo, fotos da inauguração da fábrica. Segundo ele, todas as fotografias existentes ficaram nos arquivos da empresa e com a família Lavin.

Após sair da Casablanca o Ortega assumiu a diretoria comercial da Trol, cargo que ocuparia até o início dos anos 1980.

Esta informação ajudou a esclarecer um mistério. A Trol lançou o Fort Rin Tin Tin, o qual vinha com figuras que possuíam o nome “Casablanca” gravado na base. Agora está claro – na sua saída da Casablanca o Ortega ficou com alguns moldes de figuras, e cedeu estes moldes para que a Trol produzisse as figuras que comporiam o Fort Rin Tin Tin. Aliás, o próprio Fort foi uma idéia sua na Trol.

O Alexandre informa que o trabalho do seu pai na Trol era um trabalho de sonhos – ele viajava pelo mundo todo procurando novidades e voltava de viagem com malas de brinquedos para serem avaliadas pelo laboratório da Trol.

Após essas avaliações o Ortega dava os brinquedos importados para os filhos de alguns funcionários da Trol, e para o seu filho Alexandre. O Alexandre conta que ganhava tantos brinquedos que acabava nem apreciando adequadamente cada um dos brinquedos que possuía. E sua mãe estava sempre reunindo brinquedos em casa para doar para orfanatos.

Entre os vários brinquedos trazidos pelo Ortega para o Brasil, um dos maiores sucessos foi o Playmobil. O Alexandre conta que na reunião agendada com a diretoria da Geobra, na Alemanha, os alemães informaram que não dariam autorização para que o Playmobil fosse produzido no Brasil. Seu pai, então, proferiu as seguintes palavras:

“Os senhores me decepcionam ao demonstrar tamanha falta de conhecimento sobre o Brasil. A população infanto-juvenil do Brasil já é superior à da Alemanha. Além disso, a população jovem do Brasil é crescente, enquanto a população jovem da Alemanha é decrescente. Os senhores não conseguem perceber o imenso potencial deste mercado?”

O Ortega saiu da reunião com a autorização para que a Trol iniciasse a produção de Playmobil no Brasil.

Por decisão do Ortega o Playmobil estreou no Brasil pela linha faroeste, em função das suas lembranças com o sucesso da Casablanca.

Entre outros sucessos trazidos pelo Ortega para o Brasil está o Velotrol.

Ao se desligar da Trol o Ortega trabalhou com representação comercial até o fim da sua vida, sempre recebendo prêmios de campeão de vendas.

Ortega faleceu em 11 de novembro de 2002. É uma lástima eu não ter tido a oportunidade de conhecê-lo em vida, para documentar suas histórias.

Eu fiquei aguardando uma imagem do Ortega para ilustrar este artigo mas, até o momento de sua publicação, não a recebi. Caso a receba posteriormente, será incluída aqui.

Dos três sócios fundadores da Casablanca, apenas o Luis Lavin ainda está vivo. É profundamente triste que não deseje compartilhar suas memórias referentes à história do Forte Apache no Brasil.

Algumas curiosidades:

O Diário Oficial de 29 de agosto de 1966 trás o registro do requerimento (com data de 17 de março de 1964) da patente do Forte Apache. A patente não foi requerida em nome da Casablanca, mas sim em nome de Francisco Ortega Blanco e Andrés Luis Lavin. Abaixo duas imagens: a primeira da página inteira do Diário Oficial e a segunda apenas do pedaço onde aparece o pedido de patente do Forte Apache:

Os planos da Casablanca eram grandiosos. Uma pena que acabaram interrompidos. A edição do Diário Oficial de 24 de janeiro de 1967 dá uma idéia da grandiosidade de seus projetos. Aquela edição informava que haviam sido deferidos para a Indústria de Brinquedos Casablanca Ltda. os registros das seguintes marcas (para brinquedos):

O Descobrimento da América

Guilherme Tell

A Polícia Montada do Canadá

Os Três Mosqueteiros

Índios e Cowboys Bossa Nova

Napoleão

O Príncipe Valente

Pré-História

Os Egípcios

Casablanca

Até a próxima!

Marcos Guazzelli

Janeiro de 2012





Comentários

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De: Raul Aguiar
FANTÁSTICO!


De: David Finamor
Assim como Creio! todas as figuras Casablancas são cópias espanholas ou alemãs o fato aki apresentado é q a maioria desses kits existiu em ambas marcas! O fato é q como a maioria das coisas eram espanholas então vamos caçar a net atráz dos kits já existentes!


De: cassiano olegario
olá Marcão, maravilhoso o teu artigo, a gente volta no tempoe eu já fiquei imaginando como seria um conjunto do descobrimento da américa ou de pré-historia. Será que teriam o mesmo preciosismo do Caçada na Neve ou do P. Selvagem??? SEriam cópias da Elastolin ?? E´uma dúvida que talvez nunca seja respondida!!


De: Luiz Paulo Pizzutti - SP
Poxa, que pena não termos um contato maior. Vc esteve aqui em SP há uma semana apenas e poderíamos ter combinado um encontro, inclusive para vc. conhecer um novo polo de encontros e colecionadores que formamos, que nada tem a ver com a velha Galeria do Brinquedo antigo no centro, com a Brinquedo Raro ou com as tradicionais lojas de modelismo que ainda existem por aqui. Soldadinhos são dificeis de ver atualmente, mesmo nas feiras de antiguidades.Por isso, nós colecionadores estamos nos reunindo para trocar, vender, comprar e jogar conversa fora, num novo local que tem o apoio de lojas especializadas em colecionáveis. Até o pessoal que curte Playmobil Faroeste tb tem comparecido. Estamos começando e querendo aumentar o contigente. Abç.