UMA HISTÓRIA DE VIDA



Leitores,

Este site possui alguns objetivos principais, entre eles: mostrar brinquedos antigos e atuais, revelar “segredos” da história dos brinquedos e fabricantes, documentar viagens realizadas e contar histórias de pessoas. Entre estes objetivos, o que mais me deixa contente é contar histórias das pessoas. Só não conto mais porque parece que as pessoas são tímidas, e não nos enviam suas histórias, o que é uma pena, pois ficamos sem conhecê-las.

Recentemente recebi a história do Dino Alves, a qual achei bem emocionante e merecedora de publicação aqui no site.

O Dino nasceu em 1967, em Brasília. Seu pai era mineiro e sua mão piauiense. Ambos eram trabalhadores na construção de Brasília. Quem conhece a história dos trabalhadores que migraram para trabalhar na construção de Brasília (os “candangos”) sabe que: eram paupérrimos e as condições de vida eram muito ruins. O núcleo familiar era composto pelos pais, Dino e mais três irmãos.

Dino sempre foi um garoto tímido, mergulhado em pensamentos, preso em seu mundo imaginário. Talvez como uma forma intuitiva de se isolar daquele universo rude que lhe cercava.

A família não possuía televisor. Um dia Dino viu uma TV pela primeira vez, e seu pai lhe falou “um dia lhe daremos um aparelho do futuro”. Dino olhou para a tela e viu a imagem de um homem mascarado, com dois revólveres, montado a cavalo.

O encantamento foi instantâneo, e Dino sentia como se seu destino estivesse preso à figura do homem “mágico” que morava dentro daquele aparelho que ele  chamava de caixa da felicidade.

Em 1971 seu pai faleceu, e Dino mergulhou ainda mais em seu mundo imaginário.

Com a pensão recebida em função do falecimento do pai, a mãe de Dino ousou comprar um televisor preto e branco, financiado em 24 parcelas. Ele acreditava que não veria o tal homem dentro do televisor adquirido, afinal o homem “morava” naquele outro televisor, aquele que seu pai havia mostrado para ele. Contudo, quando ligou a nova aquisição da família acabou encontrando o homem lá. Valente, corajoso e forte, como o Dino gostaria de ser.

A partir daí Dino estava mais feliz. Até que, naquele que seria um “belo triste” dia, Dino visitou a casa de uma família de melhor condição econômica e viu que o menino que lá residia segurava em sua mão um homenzinho montado a cavalo. Então o homem da televisão também existia como brinquedo. Por mais que pedisse para ver, o garoto não quis lhe deixar pegar o boneco. Naquela visita Dino também descobriu outra coisa – a TV em cores.

Dino passou a desejar tanto aquele boneco, que isto se transformou em fonte de sofrimento. Ao ponto em que ele passou a tentar reproduzir no papel, com desenhos, o boneco que havia visto na mão do garoto. Tentou, tentou e tentou, até que um dia conseguiu reproduzir, ali em suas mãos estava um desenho bastante bom do homenzinho que havia visto nas mãos do garoto. Dino então passou a reproduzir também os cowboys que via na TV, cada vez mais se aprimorando na arte de desenhar.

Um dia uma amiga de sua mãe viu os desenhos e exclamou: “você desenha soldados de Forte Apache”. Forte Apache?

Dino descobriu então onde o seu sonho era vendido – na loja do Seu David, um comerciante judeu. A loja possuía um Forte Apache montado na vitrine. Para ter acesso ao seu sonho, bastaria comprá-lo, mas para isso era necessário ter dinheiro. Como não tinha, Dino passava tempo observando a vitrine da loja, guardava as imagens na memória e ia para casa reproduzi-las em seus desenhos.

Numa tarde, chegou para a tradicional “visita” à vitrine e o objeto de seus sonhos, o Forte Apache, não estava mais lá, alguém tinha comprado. Acabou descobrindo para quem tinha sido vendido, mas o comprador era de localidade distante, e não havia como ir até lá tentar ver os soldadinhos, para tentar pegá-los e senti-los em suas mãos.

Algumas semanas depois um outro Forte Apache apareceu na vitrine. Só que o Seu David, cansado da presença do Dino na vitrine, deu um passa fora no menino. Pior, disse que sabia que ele estava ali para roubar.  Ameaçou chamar a polícia e disse: “volte para o seu planeta, o planeta dos macacos”. Triste que isto tenha vindo de um judeu, justamente um povo com um passado (e presente) de sofrimento e perseguição.

À noite Dino sonhava com o desenho da caixa do Forte Apache. No Natal de 1975 Dino encontrou na lixeira de um edifício uma caixa novinha de Forte Apache (vazia). Foi seu grande presente, e agradeceu a Papai Noel. Não acreditava que alguém pudesse ter jogado no lixo algo tão precioso.

De posse da sua caixa nova, Dino passou a melhorar a qualidade dos seus desenhos, copiando a ilustração da caixa. Inicialmente sua mãe lhe dizia que aquilo (a caixa) era fotografia pintada, como era comum no nordeste. Só bem mais tarde é que o Dino foi compreender que havia uma assinatura ali, estava escrito Nelson Reis, e ele era o autor do desenho.

Um dia Dino produziu alguns desenhos dos quais se orgulhou bastante, e pensou na possibilidade de trocá-lo por um homenzinho.  Encontrou um garoto que tinha o forte e propôs a troca. Troca aceita, Dino entregou seus melhores desenhos e recebeu em troca um maravilhoso soldado. Voltou para casa sem sentir o chão, pela primeira vez na vida segurava um homenzinho com suas próprias mãos.

Mas, e muitas vezes na vida há um “mas”, a felicidade durou poucas horas. Ao final da tarde a mãe e o garoto foram à sua casa. Nas mãos dela os desenhos rasgados, ao lado dela o garoto chorando e exigindo o boneco de volta. Segundo Dino, depois disso o sonho de ter um homenzinho passou a amargar na sua boca e arder nos seus olhos.

Em algum momento em 1976 a família deixou Brasília e rumou para o interior do Piauí. Estavam ainda mais pobres, a vida mais dura, e com mais bocas para alimentar, pois sua mãe havia tido mais dois filhos. No Piauí ele passou a ver os vaqueiros da caatinga, do sertão, que eram como modelos vivos para ele.

Nos início do anos 1980, já morando na capital Teresina, o Dino viu um Forte Apache à venda. Ele já fazia pequenos trabalhos na construção civil, e tinha algum dinheirinho, mas a responsabilidade de ser o homem da casa e o sonho de estudar pesaram sobre seus ombros. Ele nunca teria o Forte Apache.

Em 1984 uma senhora que era admiradora dos seus desenhos lhe conseguiu uma oportunidade de estágio em uma agência de propaganda. Lá pôde voltar a pensar na arte do mestre Nelson Reis. Conseguiu, também, começar a estudar artes na Universidade Federal do Piauí.

Em janeiro de 1990 o Dino resolveu mudar para São Paulo, para tentar a vida de ilustrador. Acabou trabalhando na Editora Ática e encontrou, como colega de editora, ninguém menos do que o Nelson Reis. Conta Dino que não ousou sequer dirigir a palavra ao Nelson, pois não se julgava um discípulo à altura.

Em 2011, já como um conhecido ilustrador, Dino resolveu voltar a residir no nordeste. Ele tem certeza de que fez o melhor que pôde na vida. Diz que como um guerreiro do Forte Apache ele lutou muito, lutou para invadir e, ao mesmo tempo, para não ser invadido.

Fico emocionado com histórias assim. Histórias de pessoas que nasceram em situações em que todas as probabilidades da vida estavam contra elas, mas que souberam enfrentar as adversidades e, com esforço e sacrifício, conseguiram virar o jogo da vida e atingir seus objetivos. Não gosto de histórias de “coitadismo”, de “vitimismo”, de pessoas que procuram nos outros, ou nas circunstâncias, as justificativas para os seus fracassos. Parabéns Dino pela sua história de vida. A nota triste do texto é que você acabou não conseguindo ter o tão sonhado Forte Apache. Mas, mesmo sem tê-lo, o Forte Apache acabou sendo útil na sua vida, pois os seus desenhos lhe transformaram no cidadão Dino Alves. Se um dia passar pelas bandas do Paraná, me faça uma visita e vamos conversar sobre Forte Apache.

O Dino fala que possui vários amigos piauienses na faixa dos 50 anos de idade. Segundo ele, muitos desses amigos cresceram sem nunca ter ouvido falar em Forte Apache, sem nem saber da sua existência. Segundo o Dino, quando a família retornou ao Piauí nos anos 70 as poucas televisões que existiam eram colocadas em praças públicas, e poucas pessoas tinham acesso à programação. Mesmo aqueles que se reuniam para assistir a programação apenas viam a imagem, pois o barulho dos geradores de energia era superior ao som das TVs.

Para finalizar, o Dino envia um recado para o Nelson Reis: o Nelson, mesmo sem saber, foi uma espécie de anjo da guarda para ele, que o fez sonhar com algo que na realidade seria a sua ferramenta para abrir o caminho das pedras.

Abaixo apresentamos algumas imagens de alguns trabalhos do Dino. Quem quiser ver mais deve acessar dinoalves.wordpress.com. As duas primeiras ilustrações são exclusivas para o nosso site. Um delas mostra o Dino menino e a outra mostra o Dino adulto

 

Até a próxima!

Marcos Guazzelli

Janeiro de 2012





Comentários

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De: Jean Carlos
Belo relato... Minhas congratulações ao Dino, por ter passado por tantos "perrengues" sem ceder: nem à tentação do crime, empurrado pela pobreza; nem à tentação da raiva e do ressentimento, empurrado pelas discriminações. Sem contar que é um artista muito talentoso. Parabéns! (E Nelson Reis está vivo e bem, até onde eu sei!) Um grande abraço!


De:
O Grande Nelson Reis ainda é vivo?, se sim que bom! pois ele indiretamente fez parte de nossa infância e de nossos sonhos com suas magníficas ilustrações.Um abraço à todos e Adiós Amigos Pedro luiZ


De:
Parabéns aos três:Ao Mestre Nelson ("lotado" atualmente no "Fort Heaven"), ao seu herdeiro Dino(grande traço garoto!) e ao Marcos que sempre divulga coisas desse Universo Western que nos é tão querido(sempre uso botas, meu xodó é uma cano longo texana Durango monstro-de-gila bicolor) Fiquem com Deus e que este Ano possa ser um pouco mais leve, pois até agora...Um grande abraço à todos Pedro Luiz Malaspina "Soldier Blue"


De: Rosangela
Nossa que linda história de vida, fiquei emocionada. Parabéns pela matéria.