DUAS BATALHAS



“Os índios eram grandes guerreiros” é um mantra repetido por tantos e tantas vezes que se transforma numa daquelas verdades inquestionáveis, quase bíblicas.

Será que eram mesmo? Onde estão as grandes vitórias? Onde estão as grandes estratégias militares? Eu, pelo menos, não as conheço.

Como já escrevi em outro texto, os índios preferiam, sempre que possível, fugir da batalha (não discordo disto, eu também prefiro fugir, mas ninguém diz que sou um grande guerreiro...). Só partiam para o confronto quando as probabilidades de sucesso estavam todas a seu favor, ou quando colocados em situações sem saída. Mesmo assim, na maioria das vezes fracassavam. Há histórias de batalhas travadas entre centenas de índios de um lado e dezenas de soldados do outro, onde não houve sequer um soldado ferido.

Os índios eram individualistas em batalha e não conseguiam respeitar uma estratégia coletiva. Se preocupavam mais em realizar feitos pessoais que lhes rendessem admiração na tribo, do que em efetivamente eliminar inimigos.

Poucos tinham algum talento militar. Talvez o melhor exemplo de talento militar tenha sido Cavalo Louco, mas mesmo ele tinha deficiências, como será visto abaixo.

Pode-se dizer que os confrontos no velho oeste eram confrontos entre medíocres. De um lado, índios mal preparados, mal armados, sem estratégia, de outro lado soldados mal vestidos, mal remunerados, mal treinados, mal alimentados e mal equipados.

Neste texto vou comentar sobre dois confrontos ocorridos durante a conquista do oeste que, em minha opinião, demonstram que os índios não eram grandes combatentes.

Havia uma trilha que ligava o sul do Wyoming aos campos de mineração de Montana, a trilha Bozeman, que cruzava o meio das terras dos Chyennes e dos Sioux. Quem viajava por esta trilha era constantemente atacado, e muitos não chegavam ao destino com vida. Em 1865 o governo Americano decidiu construir três fortes par proteger os viajantes da trilha. Os fortes foram denominados Fort Reno, Fort Phil Kearny e Fort C.F. Smith.

Infelizmente não existe nenhuma fotografia de nenhum desses três fortes. Mas há desenhos. Os três tinham paliçada, parecendo com os fortes do nosso imaginário, o que era bastante raro no oeste. A grande maioria dos fortes não possuía paliçada (eram desnecessárias, pois os índios não atacavam).

Segue abaixo uma imagem de cada forte na ordem: Reno, Phil Kearny e C.F. Smith:

Os índios, que já não gostavam de ver viajantes passando por seu território, não aceitaram a construção desses fortes, e partiram para a guerra, que acabou sendo conhecida como Guerra de Nuvem Vermelha, travada entre 1866 e 1868.

O evento mais marcante ocorrido durante esta guerra foi o massacre do Capitão Fetterman, mas esta batalha será abordada em artigo futuro.

Muitas escaramuças marcaram esta guerra mas, entre elas, vou comentar duas, que ficaram conhecidas como Hayfield Fight e Wagon Box Fight. Os fortes mais assediados foram Phil Kearny e C.F. Smith. O Forte Reno viu pouca ação.

Os rifles utilizados pelos soldados durante o massacre do Capitão Fetterman eram de recarga pela boca do cano, o que implicava num longo intervalo entre um tiro e outro. Após o massacre os soldados foram reequipados com o rifle Springfield 1866, que era recarregado por trás, e reduzia o intervalo entre tiros.

Em julho de 1867 os sioux e cheyennes se reuniram nos acampamentos dos rios Tongue e Rosebud. Do encontro resultou uma decisão conjunta: os fortes Phil Kearny e C.F. Smith deveriam ser destruídos. Os índios, contudo, não conseguiram chegar a um consenso sobre qual dos dois fortes deveria ser destruído primeiro. Desta forma, dividiram suas forças em dois grupos e partiram para ataques simultâneos. Esta indecisão já demonstra uma falta de capacidade de elaborar uma estratégia elementar de guerra.

Em 1º de agosto de 1867 o primeiro grupo atacou. Contudo, ao invés de atacar diretamente o Forte C.F. Smith, os cerca de 800 guerreiros preferiram atacar primeiro um pequeno grupo de cortadores de feno composto por 19 soldados e 6 civis. Este grupo estava em um pequeno cercado, localizado a cerca de 5 quilômetros do Forte Smith, e a batalha viria a ser conhecida como Hayfield Fight. Abaixo um esboço do local do combate, incluindo a posição de cada combatente:

 

Eram 800 contra 25. O combate se estendeu por cerca de seis horas. Ao final do dia chegou socorro do Forte Smith. Embora os tiros pudessem ser ouvidos do forte durante todo o dia o socorro demorou muito porque o comandante do forte temia desguarnecê-lo. Ao final havia três brancos mortos. As baixas do lado dos índios são incertas, mas fala-se em 300 entre mortos e feridos.

Há um filme específico sobre o evento e quem desejar ver um trailler no Youtube pode clicar aqui: http://www.youtube.com/watch?v=czgiRIPh61M

Em 2 de agosto de 1867, sem saber sobre o fracasso do ataque do dia anterior, o segundo grupo atacou. Ao invés de investir diretamente contra o Forte Phil Kearny preferiram, também, atacar um pequeno grupo de corte de madeira composto por 31 soldados e alguns civis, o qual se encontrava a alguns poucos quilômetros do forte. Seria o wagon box fight.

Do lado dos índios o número de combatentes é incerto, mas estava entre 1.000 e 2.000. 1.500 é a cifra que vi mais vezes mencionada. Os índios eram liderados por Cavalo Louco. Testemunhas dizem que Nuvem Vermelha também estava na batalha, mas isto é incerto.

Desta forma eram mil e quinhentos contra trinta e poucos.

Os soldados dispuseram 14 carroças num formato de fortificação oval, sem as rodas.

A batalha durou cerca de 5 horas, ao longo das quais os índios fizeram várias investidas contra a pequena fortificação improvisada.

Ao final do dia uma força de socorro chegou do Forte Phil Kearny.

Encerrado o combate, as baixas entre os soldados foram 5 mortos e 2 feridos. Do lado dos índios as quantidades são incertas, mas fala-se em 60 mortos e 120 feridos.

Os índios se retiraram humilhados de ambos os combates e desistiram de prosseguir com seus planos de destruir os fortes.

Em 1868 o governo Americano estava em crise econômica e estava caro manter os três fortes e as respectivas guarnições. Desta forma, através do tratado de Forte Laramie o governo concordou em desocupar os fortes e entregá-los aos índios. Os fortes foram queimados no mesmo dia. Os índios interpretaram isto como uma vitória. Não era, os brancos estavam apenas fazendo uma retirada estratégica, por necessidades econômicas. Mesmo assim, ainda tiraram uma vantagem da retirada, convenceram as duas principais lideranças dos Sioux – Nuvem Vermelha e Cauda Malhada – a irem viver em reservas. Ambos nunca mais voltariam a combater.

Da parte dos índios a tranqüilidade durou até 1874. O governo Americano, recuperado da crise, achou que era hora de voltar a ocupar aquela região. Em 1874 houve a expedição às Black Hills, liderada por Custer, a qual encontrou ouro. Em 1876 o Little Big Horn, e o resto é história.

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Janeiro de 2012





Comentários

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De: Marcos Faria
Mais um texto fantastico e incentivador a todos admiradores do tema, por ser sempre tão bom aguardamos o proximo dai ficamos preguiçosos em pesquisar e contribuir p o site, como nas tardes vendo Rintitin na TV mas fica aqui renovado pedido de maior participação de todos. Renovado e redundantes parabéns a nossa Bíblia do Faroeste no Brasil.


De: Jean Carlos
"Pode-se dizer que os confrontos no velho oeste eram confrontos entre medíocres." Aí está algo que nunca imaginei; sempre tive em mente os grandes e garbosos confrontos recriados por Hollywood... Agradeço por mais esta aula de História! Um grande abraço!


De: Tadeu Mahfud
Gostei dos relatos. Na primeira estória High field fight o que mais me impressiona são as entrelinhas do texto abaixo do desenho onde diz quem estava nas posições numeradas e o que aconteceu. Um soldado que ficou petrificado e não disparou um único tiro, outro que lutou bravamente, e outro que perdeu as estribeiras e queria cometer suicidio..rsrssr... Muito bom Guazelli...Abração.


De: Raul Aguiar
ótimo artigo!parabéns guazzelli!


De: David Orling
Caro Guazzelli! Ótimo texto! Eu como professor de história fico feliz de saber que estás bem informado. Ao estudarmos a os nativos da Ámerica do Norte vemos que realmente, como dizes, não eram preparados para combates com exércitos. Parabéns! David Orling


De: cassiano olegario
E´estranho imaginar que com uma superioridade numérica tão grande os indios não obtinham êxito . Talvez os filmes tenham dado outra visão a respeito dos indios, até então eu os imaginava astutos e aguerridos mas depois do artigo fiquei na dúvida!!!