O LITTLE BIGHORN



O dia era 25 de junho de 1876. Em Filadélfia realizava-se uma gigantesca exposição para celebrar os 100 anos da independência Americana. O Imperador Brasileiro Dom Pedro II passeava pelos corredores da exposição, acompanhado pelo presidente americano, Ulysses Grant, quando resolveu parar para entender melhor uma engenhoca que um cidadão estava expondo na feira. Até aquele momento ninguém havia dado importância para o cidadão, nem para a sua engenhoca. O cidadão se chamava Alexander Graham Bell, e a engenhoca era o telefone. Como despertou a atenção do imperador brasileiro, as autoridades americanas acabaram também se interessando pelo fio que falava...

Dom Pedro II acabou sendo o segundo acionista a investir na companhia Bell, e um dos primeiros telefones do mundo foi instalado em seu palácio, em Petrópolis. Para falar com quem...?

Neste mesmo dia, a alguns milhares de quilômetros dali, nascia uma lenda. Uma batalha que, embora pequena em número de participantes e de vítimas, entraria para a história e para o imaginário coletivo – a batalha do Little Bighorn, realizada entre a 7ª Cavalaria e uma força de índios liderada pelos sioux, mas com cheyennes e arapahos, que resultou na morte do General Custer.

Uma das celebridades aguardadas para visitar a exposição de Filadélfia em algum momento próximo era justamente o General Custer, que chegaria à exposição coberto pelas glórias de sua mais recente vitória contra os índios. Nunca aconteceu. Pelo contrário – as autoridades políticas e militares americanas se encontravam em Filadélfia quando a notícia do massacre da 7ª cavalaria chegou ao leste. A primeira reação das autoridades foi negar, afirmando que era impossível que aquela notícia fosse verdadeira.

Poucos eventos na história da humanidade renderam tantos livros, filmes, quadrinhos, quadros e brinquedos quanto a batalha do Little Big Horn. Muita coisa boa se disse sobre a batalha. E muita besteira também. O objetivo deste texto é fornecer algumas informações bastante resumidas sobre o desenrolar da batalha, e apresentar algumas imagens de brinquedos relacionados ao evento.

Muito se escreveu sobre a imprudência de Custer ao ordenar “precipitadamente” o ataque ao acampamento de índios. É fácil dizer isto nos séculos XX ou XXI, no conforto de nossas residências ou escritórios. Mas, para ser historicamente honesto, é preciso avaliar a decisão no contexto da época, e a verdade é que os índios não enfrentavam tropas militares, preferindo, sempre que possível, fugir. Desta forma, a principal preocupação de um comandante militar à época era tentar evitar que os índios fugissem, não sua eventual (e improvável) reação. O ataque sempre precisava ser rápido e fulminante, para não dar aos índios o tempo para que realizassem a fuga.

A expedição militar planejada à época previa três forças, que convergiriam sobre os índios considerados hostis a partir de três direções distintas, objetivando impedir, justamente, a fuga. A preocupação não era enfrentamento, ou tamanho das forças índias, a preocupação era a possibilidade de fuga.

As colunas militares eram as seguintes:

Coluna do Dakota, vinha do leste, sob o comando do General Terry. A principal força desta coluna era a 7ª Cavalaria do General Custer, que estava sob o comando de Terry.

Coluna do Montana, que vinha do oeste, sob o comendo do Coronel Gibbon.

Coluna do Wyoming, que vinha do sul, sob o comando do General Crook.

As três colunas deveriam estar em comunicação, para que pudessem operar de forma integrada. Isto nunca ocorreu.

Uma parte dos índios eram hostis em tempo integral. Outra parte era composta de hostis de verão, ou seja, índios que passavam o inverno nas reservas e se juntavam aos hostis no verão. O número de índios que deixavam as reservas no verão variava de ano para ano. 1876 foi um dos anos em que mais índios deixaram as reservas, o que contribuiu substancialmente para aumentar a força índia. Só que esta informação nunca chegou para nenhuma das três colunas militares que estavam em campo. Esta foi a primeira grande falha da operação.

Os índios não perceberam o avanço das colunas de Terry e de Gibbon, mas perceberam o avanço da coluna de Crook. Tanto que quando Custer atacou o acampamento em 25 de junho os índios achavam que eram tropas de Crook, conhecido por eles como “Três Estrelas”.

Enfim, percebendo o avanço das tropas de Crook, os índios concluíram que tal avanço representava uma ameaça ao seu acampamento e, consequentemente, às suas famílias. Realizaram seus conselhos e decidiram marchar para enfrentar a tropa de Crook longe do acampamento. Uma grande força de índios deixou o acampamento em direção à tropa de Crook. O encontro ocorreu na manhã de 17 de junho no Rosebud, e os soldados foram colhidos praticamente de surpresa. A batalha durou quase o dia todo e embora o número de baixas tenha sido mais ou menos equivalente de lado a lado os soldados praticamente exauriram seu estoque de munição. Desta forma, o General Crook “decretou” a vitória e retirou suas tropas de campo, rumando para o Wyoming, para obter suprimentos. Dizem que não foi uma retirada para buscar suprimentos, mas sim uma fuga em desespero, pois Crook teria ficado bastante abalado com a ferocidade da batalha e com as possibilidades de aniquilamento que os soldados enfrentaram naquele dia. O fato é que Crook permaneceu bastante tempo no seu acampamento base no Wyoming, curando as feridas...

Percebendo a retirada dos soldados os índios também se entenderam vitoriosos e retornaram para seu acampamento, para as celebrações.

Neste momento ocorreu a segunda grande falha da operação, de duas formas:

Crook voltou para o Wyoming, abandonando o teatro de operações. Contudo, Crook jamais se preocupou em enviar mensageiros para informar as duas outras colunas de que ele estava se retirando, de forma que elas não mais poderiam contar com a sua ação;

Havia uma mudança radical no comportamento dos índios, de fuga para enfrentamento. Crook também não procurou enviar esta informação vital para as duas outras colunas.

Desta forma, durante a batalha do Little Bighorn a 7ª Cavalaria não sabia da batalha do Rosebud, não sabia da mudança de postura dos índios, e muito menos da retirada de Crook do teatro de operações.

As colunas Dakota e Montana se encontraram, e traçaram planos conjuntos. Não sabiam por onde andava a coluna de Crook. Desta forma, planejaram um movimento em que a 7ª Cavalaria (sem Terry) rumaria ao sul, quase até a fronteira com o Wyoming, e então iniciaria um movimento de retorno para o norte. Já Terry, com o restante da coluna do Dakota, e Gibbon marchariam do norte para o sul. A idéia era pegar os índios entre dois fogos: Custer vindo do sul, Terry e Gibbon vindo do norte.

Neste ínterim, seis companhias da 7ª Cavalaria haviam sido enviadas sob o comando do Major Reno para tentar localizar os índios. Reno encontrou uma trilha de índios, mas optou por não confrontá-los. Apenas retornou com a informação até o local ao norte onde as tropas estavam acampadas.

Terry era um general de gabinete, sem experiência de ação contra os índios. Sem formação militar, era advogado, que foi promovido a general dos voluntários durante a guerra civil. Foi o único civil que, terminada a guerra, foi mantido como general no exército regular. Mas nunca deixou de pensar como advogado ... e deu ordens escritas a Custer, antes de sua partida. As ordens escritas (abaixo) são um primor de ambiguidade, deixando a possibilidade (para Terry) de se vangloriar com eventual vitória, ou de colocar a culpa em Custer em caso de fracasso (como ele fez). O texto completo da ordem:

“The Brigadier-General Commanding directs that, as soon as your regiment can be made ready for the march, you will proceed up the Rosebud in pursuit of the Indians whose trail was discovered by Major Reno a few days since. It is, impossible to give you any definite instructions in regard to this movement, and were it not impossible to do so the Department Commander places too much confidence in your zeal, energy, and ability to wish to impose upon you precise orders which might hamper your action when nearly in contact with the enemy. He will, however, indicate to you his own views of what your action should be, and he desires that you should conform to them unless you shall see sufficient reason for departing from them. He thinks that you should proceed up the Rosebud until you ascertain definitely the direction in which the trail above spoken of leads. Should it be found (as it appears almost certain that it will be found) to turn towards the Little Bighorn, he thinks that you should still proceed southward, perhaps as far as the headwaters of the Tongue, and then turn toward the Little Horn, feeling constantly, however, to your left, so as to preclude the escape of the Indians passing around your left flank.

The column of Colonel Gibbon is now in motion for the mouth of the Big Horn. As soon as it reaches that point will cross the Yellowstone and move up at least as far as the forks of the Big and Little Horns. Of course its future movements must be controlled by circumstances as they arise, but it is hoped that the Indians, if upon the Little Horn, may be so nearly inclosed by the two columns that their escape will be impossible. The Department Commander desires that on your way up the Rosebud you should thoroughly examine the upper part of Tullock's Creek, and that you should endeavor to send a scout through to Colonel Gibbon's command.

The supply-steamer will be pushed up the Big Horn as far as the forks of the river is found to be navigable for that distance, and the Department Commander, who will accompany the column of Colonel Gibbon, desires you to report to him there not later than the expiration of the time for which your troops are rationed, unless in the mean time you receive further orders. “

Alguns trechos da ambiguidade :

“ É impossível fornecer instruções definitivas a respeito deste movimento.”

“O comandante deposita muita confiança no seu zelo, energia e habilidade, para desejar impor ordens precisas que possam dificultar a sua ação quando quase em contato com o inimigo.” Ou seja, se Custer obtivesse uma vitória contra os índios, Terry poderia dizer que foi a sua genialidade militar que, ao deixar Custer livre para a ação, permitiu a vitória.

“Ele (Terry) irá, contudo, indicar suas próprias visões de como sua ação deveria ser, e você deveria se ater a elas, a menos que veja suficiente razões para agir de outra forma.”

Uma das grandes mentiras escritas sobre a batalha é que Custer, ao atacar em 25 de junho, desrespeitou as ordens de Terry, que teria determinado o dia 26 para um ataque conjunto. Em nenhum lugar da ordem há referência ao dia 26. Além disso, Terry e Gibbon só chegaram ao Little Bighorn no dia 27 de junho.

Enfim, Custer partiu à procura dos índios em regime de marcha forçada. Ninguém sabia com certeza onde os índios se encontravam. Na madrugada de 24 para 25 de junho os batedores da 7ª Cavalaria, que estavam num local chamado Crow’s Nest mandaram chamar Custer, com informação de que haviam avistado o acampamento, que estaria à margen do rio Little Bighorn. Custer montou em pêlo e foi em direção ao local. Lá chegando, nas primeiras horas da manhã, não conseguiu ver nada, por mais que se esforçasse. Seus olhos não eram treinados, como os dos batedores. Contudo, como os batedores insistiram que o acampamento estava lá, Custer acreditou. E estava mesmo.

Fazendo o caminho de volta, Custer encontrou o regimento, que vinha seguindo na sua direção, comunicou a descoberta e informou que eles marchariam na direção do acampamento até um local em que pudessem se esconder para passarem a tarde e noite do dia 25 descansando, para atacar ao alvorecer do dia 26. A tropa (cavalos e homens) estava exausta em função das marchas dos últimos dias. E Custer gostava de atacar pela manhã.

Alguns instantes depois o irmão de Custer, capitão Tom Custer, chegou com uma notícia preocupante: um baú havia caído de uma das mulas de carga durante a escuridão da madrugada. Quando os soldados deram falta do baú, fizeram o caminho de volta para encontrá-lo. Lá chegando, encontraram o baú cercado por índios. Os índios fugiram, mas os soldados haviam sido vistos. Custer então concluiu que os índios rumariam imediatamente para o acampamento e dariam o alarme, provocando a fuga dos índios (mais uma vez, a preocupação era evitar a fuga). Assim, imediatamente mudou as ordens – marchariam imediatamente em direção ao acampamento e atacariam assim que chegassem, sem parada para descanso. Esta decisão o condenou à morte.

Os tais índios que estavam com o baú acabaram só chegando ao acampamento após a batalha, mas Custer não tinha como saber disto quando tomou a sua decisão de atacar.

Ao se aproximar do acampamento começou a tão criticada divisão do regimento em partes. Sem dúvida, esta divisão foi responsável pela aniquilação de parte substancial da tropa, mas é fácil concluir isto depois do acontecido. Difícil é estar lá na hora e tomar as decisões corretas.

A primeira divisão dizia respeito às mulas de carga. Elas não conseguiam marchar na mesma velocidade do restante da tropa e, portanto, foram deixadas para trás. Para proteger os suprimentos Custer designou uma companhia de cavalaria (companhia B). Além disso, para reforçar a segurança todas as demais companhias precisaram ceder homens para a escolta das mulas.

A segunda divisão de tropas ocorreu quando Custer determinou que três companhias (H, D e K), sob o comando do capitão Benteen, fizessem um avanço diagonal em relação ao corpo principal do regimento, pelo flanco esquerdo, para verificar se havia outros acampamentos de índios, além do acampamento principal. Esta decisão teve duas razões principais:

Na Batalha do Washita, realizada oito anos antes, Custer havia sido criticado por não ter enviado tropas para verificar a existência de outros acampamentos na região. E esta decisão colocou em risco a segurança do regimento;

Benteen era o principal desafeto de Custer, e ele uniu o útil ao agradável, se livrando da presença daquele que sempre desafiava suas ordens.

A terceira divisão de tropas ocorreu quando Custer destacou três companhias (A, M e G), sob o comando do major Reno, para cruzarem o rio Little Bighorn e prosseguirem diretamente em direção ao acampamento e atacarem, enquanto Custer, com as cinco companhias restantes (C, E, F, I, L), faria a volta no acampamento para atacar pelo outro lado.

Reno era alcoólatra e inapto para o comando. Primeiramente ordenou uma carga de cavalaria em direção ao acampamento. Segundo testemunho de soldados sobreviventes, Reno bebeu durante o galope para criar coragem. O que teria acontecido se ele tivesse liderado a carga até o acampamento, como havia sido ordenado? Duas possibilidades: a) como os índios haviam sido pegos de surpresa, começariam a fugir para todos os lados, facilitando a ação do restante do comando e dividindo as forças índias, b) seriam aniquilados. Mas nunca saberemos o que teria de fato acontecido.

O fato é que no meio do caminho Reno desistiu do ataque e mandou seus homens pararem e formarem uma linha de defesa (skirmish line). Da posição de ataque passou à posição de defesa. A partir daí a iniciativa ficou com os índios. Quando começaram a ocorrer as baixas entre os soldados da linha de defesa Reno, assustado, ordenou uma retirada para uma mata próxima. Depois de algum tempo na mata Reno, desesperado, ordenou uma retirada total, sem proteção de cobertura, em direção às montanhas próximas. Restou aos índios promover uma carnificina enquanto os soldados fugiam apavorados. Reno e sobreviventes conseguiram chegar o topo da colina mais próxima. Os índios não perseguiram para terminar o serviço, pois neste momento Custer iniciava seu ataque do outro lado do acampamento. Mas vamos por partes...

Custer e suas cinco companhias seguiram adiante com a intenção de contornar o acampamento e atacar pelo lado oposto ao ataque de Reno. Até então eles não tinham idéia do tamanho do acampamento.

Quando chegaram a um ponto em que era possível perceber toda a extensão do acampamento, Custer resolveu despachar um mensageiro (Giovani Martini) para chamar Benteen de volta. Martini foi, na verdade, o segundo mensageiro enviado em direção a Benteen naquele dia, o primeiro foi o sargento Daniel Kanipe. Martini foi o último branco sobrevivente a ver Custer com vida. Para não restar dúvidas, o ajudante Cook colocou a ordem por escrito. Dizia basicamente o seguinte: Benteen, venha. Seja rápido. Aldeia grande. Traga as munições. P.S. traga as munições.

Martini despachado, Custer então prosseguiu em seu movimento de tentativa de contornar o acampamento. No cume de uma colina, conhecida atualmente como Calhoun’s Hill, Custer realizou a quarta divisão de suas forças naquele dia. Custer deixou três companhias sob o comando do capitão Keogh. A missão destas companhias era manter aberto o caminho pela qual eles aguardavam a chegada de Benteen e suas três companhias.

Custer, liderando agora duas companhias, desceu em direção ao rio Little Bighorn, até a margem do acampamento. Há duas hipóteses para a realização deste movimento: a) Ele procurava um lugar onde fosse possível cruzar o rio, para atacar o acampamento quando recebesse o reforço de Benteen, b) o movimento foi realizado para disparar tiros em direção ao acampamento, atraindo a atenção e aliviando a pressão que era realizada sobre as forças de Reno. Custer não sabia que naquele momento Reno e seus sobreviventes já estavam em fuga.

Mas, enfim, foi neste momento que Reno e seus sobreviventes chegaram em fuga ao alto de uma colina (Reno Hill). Os índios, recebendo a informação de que o outro lado do acampamento estava sob ataque, abandonaram a perseguição a Reno (poupando seu destacamento da aniquilação total) e começaram a se mover em direção à nova ameaça.

Neste ínterim, Giovani Martini já havia alcançado Benteen e entregue a ordem. Benteen, que era inimigo de Custer, interpretou a ordem da seguinte forma: bom, se ele escreveu que é para levarmos as munições, temos que prosseguir na velocidade das mulas...O fato de que a ordem dizia expressamente “seja rápido” foi desprezado na interpretação de Benteen.

Para terem uma idéia do que era possível ser feito em termos de deslocamento, cito o caso do irmão mais novo de Custer, Boston Custer, que acompanhava as tropas. Quando Custer já fazia seu movimento de tentativa de contornar o acampamento, Boston constatou que precisava trocar seu cavalo. Começou a fazer o caminho de volta, cruzou pelas tropas de Benteen, foi até o comboio de mulas que estava bem para trás, trocou o cavalo, retomou o caminho, cruzou por Benteen de novo, cruzou com Giovani Martini, juntou-se a Custer e morreu com ele. Ou seja, tempo para Benteen alcançar Custer havia.

Pouco depois de Reno chegar em fuga ao cume da montanha, as tropas de Benteen também chegaram lá. Neste momento Benteen, que seguia em passo de tartaruga, abandonou de vez a ordem e resolveu se juntar a Reno, abandonando Custer à sua própria sorte.

Se Custer não tivesse entregado o comando de três companhias ao seu inimigo, talvez o resultado da batalha tivesse sido outro.

Tendo examinado o Rio e disparado diversos tiros em direção ao acampamento, Custer voltou a subir a colina. No alto, percebeu que mulheres, velhos e crianças fugiam cruzando o rio na extremidade oposta do acampamento. Custer imaginou aí uma oportunidade de tomar o acampamento de maneira mais fácil – bastaria prender os velhos, mulheres e crianças e, então, utilizando os reféns, forçar os guerreiros a se renderem. Custer e suas duas companhias partiram para próximo ao local onde os índios empreendiam sua fuga, distanciando-se, então, das três companhias de Keogh. O plano era o seguinte: Keogh manteria o caminho aberto para Benteen. Quando este chegasse, ambos, com seis companhias, iriam em direção a Custer e, reunidas as oito companhias, eles fariam os reféns. Só que Benteen nunca chegou...

Os índios, agora liberados já que Reno e Benteen haviam se retirado do combate, começaram a pressionar de forma crescente a posição de Keogh, até que conseguiram quebrar a resistência e praticamente aniquilar o seu comando de três companhias. O corpo de Keogh foi posteriormente encontrado sob uma pilha de corpos de soldados, que o cercaram tentando protegê-lo. Poucos sobreviventes conseguiram fugir até Custer.

Os soldados carregavam alguns cartuchos no seu cinturão, mas o grosso da munição viajava nas selas. Os índios, sabiamente, assustaram os cavalos, forçando-os à fuga, privando, desta forma, os militares de sua reserva de munição. Isto foi feito tanto em relação ao comando de Keogh quanto em relação ao comando de Custer. Os cavalos que fugiam (nem todos) acabavam caindo nas mãos dos índios, que então tinham mais munição para combater. No início da batalha muitos índios combatiam com arco e flecha, mas à medida que soldados iam morrendo os índios iam se apropriando de suas armas.

Imagino que quando Custer recebeu os poucos sobreviventes do comando de Keogh, e a notícia que traziam, constatou que a situação estava perdida. Só restava morrer com honra. Não deve ser uma constatação fácil, a de que sua hora chegou.

Com Reno e Benteen fora do combate, e com Keogh aniquilado, toda a força de índios (estimada em 2.500) pode se concentrar na aniquilação das duas companhias que restavam com Custer (cerca de 100 homens). Os cavalos que não fugiram foram mortos, para que servissem de trincheiras. Ao decidir por matá-los estava sepultada a hipótese de tentativa de fuga. Índios disparavam flechas para o ar, as quais descreviam um movimento de U invertido, e caíam do céu sobre os soldados entrincheirados, tornando inúteis as barreiras de cavalos mortos. Estima-se que nesta fase final da batalha centenas de flechas eram despejadas por minuto sobre os soldados entrincheirados.

A imagem comum nos filmes, de um ataque final a cavalo dos índios sobre os soldados entrincheirados dificilmente aconteceu na prática. O mais provável é que os índios se aproximaram rastejando por entre o capim, por todos os lados, parando apenas para disparar tiros e flechas.

No final, segundo as pesquisas mais recentes, cerca de 28 homens fugiram a pé em desespero da colina conhecida como Last Stand Hill, em direção ao rio Little Bighorn e a um vau conhecido como Deep Ravine. Todos foram mortos.

Enquanto isso ... a alguns quilômetros dali, Reno e seus sobreviventes e Benteen e suas tropas descansavam e tomavam sol. Era possível ouvir a fuzilaria dos combates de Keogh e de Custer. Isto inquietava os demais soldados e oficiais, que queriam ir na direção dos tiros, mas Reno e Benteen não permitiam. Revoltado e contrariando ordens, o capitão Weir montou em seu cavalo e rumou sozinho na direção dos tiros. Foi seguido por sua companhia. O movimento de Weir acabou despertando o restante da tropa, que começou a se preparar e segui-lo lentamente. Weir e o comando chegaram até um morrinho conhecido como Weir Point. Dali observaram ao longe aquilo que devem ter sido os instantes finais da batalha. Os índios logo perceberam sua presença e começaram a se dirigir a eles. Iniciaram, então, um movimento de retirada em direção à posição original, de onde haviam partido. A cobertura desta retirada, realizada de maneira organizada, foi feita pela companhia do Tenente Godfrey, depois general.

Este comando sobrevivente (Reno e Benteen) ficou dois dias sob sítio (25 e 26), período no qual o Major Reno cogitou fugir com os que pudessem cavalgar, e deixar os feridos para trás. Na tarde do dia 26 os índios abandonaram o campo de batalha ao receberem a informação do avanço da coluna Terry/Gibbon.

E assim terminou aquela que é considerada uma das batalhas mais famosas da história da humanidade. Morreram 258 oficiais e soldados, e 52 ficaram feridos. Além disso, morreram civis que acompanhavam a expedição e batedores brancos e índios. As perdas do lado dos índios são desconhecidas. Custer morreu junto com dois irmãos (Tom e Boston) e com um sobrinho – Autie Reed, além do cunhado James Calhoun.

Arma – os soldados utilizavam o rifle padrão da cavalaria, Springfield 1873, de um tiro só, o que exigia que a cada tiro o cartucho fosse expelido e um novo cartucho introduzido no rifle. É possível sim que este rifle tenha contribuído para a derrota. Na época os cartuchos eram de cobre, e expandiam muito a cada tiro. É possível que alguns cartuchos tenham entalado nos rifles, reduzindo a cadência de fogo dos soldados. O Major Reno havia sido um dos membros da comissão que avaliou e escolheu este rifle para ser o padrão da cavalaria.

Como disse, muitos (centenas) livros foram escritos sobre a batalha. O que vai acima é uma versão bastante resumida dos fatos, mas é o entendimento que adquiri da batalha após todas as leituras que realizei. Muitos livros apresentam versões divergentes desta.

Catalogar todos os brinquedos feitos em referência à batalha do Little Big Horn seria quase impossível, ou, pelo menos, demandaria muito tempo e esforço de pesquisa. Desta forma, para ilustrar este artigo, peguei na internet apenas imagens aleatórias de alguns brinquedos e dioramas interessantes. Seguem, para deleite dos apreciadores do gênero:

Abaixo, as figuras da Black Hawk (Andrea), já comentadas neste site. Logo a seguir o diorama que é possível montar com essas figuras:

Figuras representando índios que participaram da batalha:

Da esquerda para a direita:

1a fila: Rain in the Face, He Dog, Yellow Nose, Sun Bear;
Fila do meio: Standing Bear, Gall, White Bull, Crazy Horse, Left Hand;
Última fila: Lame White Man, Young Little Wolf, Waterman, White Elk, Fool Bull.

Xadrez:

http://www.dynamicdioramas.org/model%20source/little%20big%20horn/source/1.html

http://www.gettysburgsoldiers.com/item.do?item_id=93

http://www.jimdero.com/Military%20Miniatures/OlderWork.htm

http://www.sdsoldiers.com/jbcd6.jpg

http://playsetaddict.com/

Toy Soldiers of San Diego:

http://www.jimdero.com/Military%20Miniatures/OlderWork.html

http://www.historicalminiatures.net/dioramas/dioramas_custer.html

A bandeira vermelha e azul com dois sabres cruzados, que aparece nas ilustrações e nos brinquedos, era a bandeira pessoal de Custer, e foi criada por sua esposa Elizabeth. O propósito desta bandeira pessoal era mostrar para as tropas em campo onde estava o comandante. Desta forma, quem estivesse transportando esta bandeira deveria estar sempre junto a Custer.

Bom, como o texto abriu falando de Dom Pedro II, encerraremos com uma curiosidade envolvendo o imperador e os americanos. Os estados do sul dos Estados Unidos, escravistas, eram muito fortes na produção de algodão. Quando a confederação foi derrotada na guerra civil, e a escravidão abolida, Dom Pedro II procurou atrair para o Brasil famílias “confederadas” de plantadores de algodão, já que por aqui ainda havia escravos para serem usados como mão de obra. Cerca de três mil famílias “confederadas” vieram para o Brasil. 80% delas não agüentou e voltou para os Estados Unidos, mas algumas resistiram por aqui. Estas que resistiram deram origem à cidade de Americana, no interior de São Paulo, cujo assentamento foi fundado pelo Coronel William Hutchinson Norris. Atualmente, cerca de 10% da população da cidade é descendente de confederados. Segundo informações, as famílias preservam o uso da língua inglesa (quando em família) e celebram o 4 de julho. Na cidade há um cemitério onde estão enterrados confederados.

As ilustrações que aparecem inseridas no texto foram gentilmente enviadas por Leonel Delmonte.

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Setembro de 2011





Comentários

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De: Hideraldo
Muito bom eu resumo. Pelo que eu havia estudado até aqui, a história dessa batalha se desenrolou assim mesmo. Detalhes como a "rivalidade" entre beenten e custer, o fato de ter dividido as forças e aquela maldita cabarina que entalava os cartuchos na câmara depois de apenas vinte ou trinta tiros, foram decisivos para o desastre.


De: Luiz Paulo Pizzutti - SP
O festival anual em Americana,dos descendentes da colonia dos sulistas, existe,é bem típico com encenações, e nos meses de Abril de cada ano.Com o aumento das cidades da região, a área do cemitério(hoje um parque)que ficava em Americana, agora pertence ao município de Santa Bárbara do Oeste, a uma hora de São Paulo.Seria uma boa oportunidade para os fãs deste site e do gênero se reunirem qualquer dia, capitaneados pelo Guazzelli que já esteve por aqui participando de eventos da Comix Livraria.


De: Luiz Paulo Pizzutti - SP
Teria fundamento a notícia de que parte dos índios puderam dispor de rifles de repetição contrabandeados ou capturados, superiores aos citados utilizados pelos soldados, mais antiquados ?


De: Luiz Paulo Pizzutti - SP
Prezado Guazzelli. Seu artigo encerra uma crônica de "primeira" sobre o tema, digno de constar em publicações sobre história. Parabéns !


De: WAGNER - Brinqtoys
Impecavel artigo e esclarecedor sobre os fatos que se sucederam em L Big Horn, a abordagem do elemento decisório do ataque, baseado em conter a fuga indigena é original e bem fundamentada. Parabens !


De: Laércio Caraça
Eu possuo o conjunto da DRAGON CAN.DO, excelente qualidade com armas removíveis e ótimo preço (17 dolares) e casam perfeitamente com figuras da Elastolin na escala 1/24.Um abraço a todos os entusiastas.


De: Marcos Guazzelli
José, esta questão de vidas passadas já me passou sim pela cabeça. Quanto à publicação, acho que ninguém teria interesse, infelizmente. Por isto existe este site, para publicar aquilo que não interessa às outras mídias. Abraços.


De: jose
Para encerra a serie de comentario que fiz, Guazzelli, já pensou em mandar para alguém nos EUA esse seu artigo? Daria um bom roteiro para uma versão definitiva de filme sobre a batalha de little big horn.


De: jose
Ola Guazzelli: Obrigado pelas respostas. Gostaria de fazer 2 perguntas: Pelo seu gosto pelo tema do forte apache e pela forma magistral como escreveu o texto, peço a licença de te perguntar se já lhe passou pela cabeça a ideia se em alguma vida passada voce eventualmente deve ter vivido no velho oeste? Esse seu artigo é digno de ser publicado em site,blog,livros ou revistas sobre historia militar. Já pensou em enviar este antológico artigo para alguma publicação?


De: Pedro Pacheco
Meu caro Guazzelli é o que sempre falo: faça o livro, será enriquecedor. Quanto aos confederados aqui de SP já fui nesta festa, é maravilhosa, tem um livro sobre eles.A Rita Lee descende deles e a Perola Byton!!!!!


De: Marcos Guazzelli
José: a) as Gatling foram recusadas para não atrasar o avanço das tropas, b) Reno foi absolvido na corte marcial, com forte pressão do oficialato pela absolvição, para não desmoralizar o exército, c) o chapéu oficial era preto, mas poucos usavam o chapéu oficial em campanha, a maioria dos soldados preferia usar seus chapéus particulares. Abraços.


De: Jose
Por fim: Sob o ponto de vista dos indios, vi o fil me "pequeno grande homem" e li o livro "enterre meu coração na curva do rio" e ao que me parece os indios só reagiram porque realmente os "brancos" passaram de todo e quaisquer limites, em termos de invasões,quebras de acordos,violaçoes de tratados,violencias,descaso das auto ridades com as tribos entre outros. Os indios deram um "basta" às iniquidades dos brancos e "sobrou" para aquele que atravessou o caminho deles, Custer.


De: Jose
-Na questão dos sobreviventes,quem lutou com custer não escapou. - A Sétima fez de tudo para dar errado! - Tenho uma pergunta que eu gostaria de fazer: porque a tropas ianques no oeste usavam 2 tipos de cores para os chapéus: azul e branco. Há alguma explicação para isso? No dia da batalha, de fato que tipo de uniforme foi usado pela setima? Já vi imagens de varias formas de uniformes, (até camisa cinza).Havia padrão ou cada soldado tinha uma "versão de uso" para o uniforme?


De: JOSE
Guazzelli e Galera: A partir do antológico texto de Marcos, indago: - Em algum lugar eu li que Custer recu- sou levar 3 metralhadoras Gatling para a batalha. É lenda? - Se tivesse que resumir em uma frase essa batalha, diria as tropas ianques exageraram nos dizeres de alexandre: dividirás e triunfarás! - Os indios não foram os unicos proble- mas enfrentados por Custer. - Benten e Reno foram julgados em corte marcial?


De: jose
Guazzelli: Texto excepcional e antológico.O melhor que eu já li sobre a batalha de little big horn,passou consciência situacional do embate. Seria um ótimo roteiro para quem quisesse (na minha opinião, ainda nao foi feito o "filme definitivo)filmar a derrota de custer.Dá a impressão de Guazzelli ter estado no campo de batalha rsss.Historiadores,jornalistas,professo- res deveriam ler este texto. Vou recomendar a leitura desta matéria.


De: Raul Aguiar
VALEU GUAZZELLI, GRANDE TEXTO!VAI ME AJUDAR MUITO, POIS ESTOU CORRENDO ATRÁS DE FIGURAS PRA FAZER UM DIORAMA SOBRE A BATALHA, E VOU USAR ESTE EXCELENTE TEXTO COMO PESQUISA!ABRAÇO


De: Marcos Guazzelli
Ronaldo: ele era tenente coronel (de 1866 a 1876) e havia cortado o cabelo mais curto (não raspado).


De: Marcos Faria / Angra RJ
Marcos nos brinda com uma aula de historia e carisma.Confirma que o brinquedo tem fundamentos historicos.Com sua inciativa primoroza ocupa a lacuna ignorada por fabricantes e historiadores e mostra o quanto o Brasil igualmente tem de riqueza historica,atraves dos brinquedos e fatos de outros países Democratizou mitos sobre o brinquedo forte apache,o eterniza para futuras gerações.Lição que deve ser incentivada,compartilhada,promovida portodos.Iniciativa,Dedicação,Preservação,educação,progresso.


De: Marcos Faria / Angra RJ
Marcos nos brinda com uma aula de historia e carisma.Confirma que o brinquedo tem fundamentos historicos.Com sua inciativa primoroza ocupa a lacuna ignorada por fabricantes e historiadores e mostra o quanto o Brasil igualmente tem de riqueza historica,atraves dos brinquedos e fatos de outros países Democratizou mitos sobre o brinquedo forte apache,o eterniza para futuras gerações.Lição que deve ser incentivada,compartilhada,promovida portodos.Iniciativa,Dedicação,Preservação,educação,progresso.


De: Ronaldo Ognibene
Prezado Guazzelli,li recentemente um gibi Tex,no qual havia um artigo sobre Custer onde constavam algumas curiosidades que você poderia me confirmar:a patente de Custer nesta batalha era de Tenente-Coronel(General somente na guerra civil) e que o mesmo havia raspado a cabeça antes da campanha (para evitar ser escalpado) apesar de sempre ser retratado com seus cabelos amarelos.Parabéns pelos artigos.


De: Tadeu Mahfud
Impressionante o relato do Guazelli. Parabenizo o amigo pela dedicação e tempo disposto para tal registro. Histórias ou mitos é mais um relato da vida contado por várias pessoas como um telefone sem fio, mas gostei muito deste relato do Guazelli. Vale a pena ler.


De: Jean Carlos C.
Caro Guazzelli, lhe agradeço e parabenizo efusivamente pelo brilhante (e mais uma vez, isento) artigo. Creio que é o único, em Língua Portuguesa, que retrata com detalhes esse dramático episódio que foi a Batalha do Little Bighorn. Já li, nas comunidades das redes sociais da vida, muitos tolos politicamente corretos criticando a figura de Custer, retratando-o como um "racista arrogante". Vejo agora que não era nada disso. Leiam e aprendam, linguarudos! Mais uma vez, obrigado. Um abraço.