GETTYSBURG - 2



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Pois eu sou fascinado pela cidade de Gettysburg, e agora no mês de abril viajei para passar uma semana por lá.  A última vez em que eu havia estado em Gettysburg foi em 2001, pouco antes do 11 de setembro. Parece que foi ontem, mas já se passaram 10 anos.

2011 é o ano do 150º aniversário da guerra civil americana, razão pela qual se incrementam os eventos em torno do tema realizados nos Estados Unidos.

Por que sou fascinado por Gettysburg? Porque lá consigo conciliar num só lugar três coisas que gosto: história, General Custer e brinquedos.

A viagem até lá foi de avião de São Paulo a Atlanta, pela Delta Airlines, também de avião de Atlanta a Harrisburg (também pela Delta), e de carro até Gettysburg.

Vamos ao relato da visita:

1. História

Um brevíssimo resumo sobre a batalha de Gettysburg: a guerra civil americana começou em 1861. Durante seus dois primeiros anos as vitórias estiveram do lado do exército confederado. Para 1863 o General Lee, principal comandante do exército confederado, planejou uma invasão no território da união, na expectativa de que uma grande vitória em combate realizado em território nortista forçasse o norte a se render.

Com base neste plano o exército confederado invadiu a Pensilvânia em junho de 1863. Por estar no centro de uma rede de estradas, a cidade de Gettysburg acabou se transformando no palco da grande batalha. A batalha de Gettysburg foi a maior batalha da história no continente americano. 51 mil ficaram mortos no campo de batalha. Uma grande quantidade morreu nos dias e meses subseqüentes, decorrente de ferimentos.

O exército de Lee se aproximou pelo norte de Gettysburg (o que é estranho, já que o exército sulista deveria se aproximar pelo sul). As escaramuças começaram dia 30 de junho de 1863, mas a batalha propriamente dita aconteceu nos dias 1, 2 e 3 de julho.

No dia 1º as forças sulistas levaram a melhor, forçando o exército nortista a uma retirada em fuga pelas ruas da cidade, em direção à parte sul de Gettysburg, onde havia território mais elevado. Militarmente a posição mais elevada é sempre a estrategicamente melhor. A fuga ocorreu também na direção em que vinham os reforços nortistas.

No 2º dia de batalha as forças nortistas já estavam entrincheiradas na parte mais alta do terreno, chamada de cemetery ridge. Houve diversos combates ao longo do dia, com leve vantagem para o exército sulista.

Mas o principal estava reservado para o 3º e definitivo dia. Neste dia todos os reforços sulistas e nortistas já haviam chegado ao teatro de operações, de forma que ambos os exércitos estavam com sua força máxima. Os nortistas estavam fortemente entrincheirados em cemetery ridge, enquanto que os sulistas ocupavam a parte baixa do terreno, uns 2 quilômetros além da posição nortista.

A extremidade esquerda da posição nortista ficavam no local denominado little round top (imagem abaixo).

Por um descuido das forças da União este local permanecia praticamente desguarnecido. O perigo foi percebido por um general de engenharia do exército nortista, que saiu correndo procurando tropas para ocupar esta posição. Os sulistas também perceberam o ponto fraco, e lançaram um ataque, mas justo no momento em que se aproximavam de little round top tropas nortistas reunidas às pressas ocuparam a posição e conseguiram defendê-la. A batalha poderia ter terminado ali, pois se os sulistas tivessem tomado o flanco esquerdo poderiam se infiltrar por trás da linha nortista.

Lee também fez uma investida pelo flanco direito do exército nortista (imagem abaixo), também sem sucesso.

Mas para Lee a cartada definitiva era um ataque maciço contra o centro do exército da União. Para isto ele reuniu três divisões de infantaria, as divisões dos generais Picket, Longstreet e A.P. Hill (o seu ataque passou para a história com o nome de Picket’s charge). Os três generais manifestaram como puderam a sua opinião contrária ao ataque determinado por Lee mas, ao fim, tiveram que acatar a ordem e atacar.

Durante uma hora antes do ataque a artilharia sulista, composta de 150 canhões, bombardeou o exército nortista. Os nortistas responderam com 100 canhões. Segundo informações o canhoneio era ouvido em Harrisburg, que fica a 50 quilômetros de distância.

Terminado o bombardeio as forças sulistas partiram para o ataque. A imagem abaixo, do General Lee em seu cavalo “Viajante”, representa o centro da posição sulista, de onde partiu o ataque:

A linha de ataque sulista se estendia por cerca de 1,5 quilômetro de ponta a ponta. Durante o avanço, morro acima, as forças sulistas eram varridas por fogo da artilharia nortista. À medida em que se aproximavam da posição nortista os sulistas aumentaram o passo e começaram a se concentrar para atingir com o maior número possível de soldados o menor ponto possível da linha da união.

Na imagem abaixo estou ao lado do General Longstreet, um dos que lideraram o ataque:

A imagem abaixo é do centro de cemetery ridge, o local que recebeu a maior onda de ataque sulista:

 A imagem abaixo é do General Meade, comandante supremo das forças nortistas:

Os monumentos de Lee e Meade ficam praticamente frente a frente, Meade no alto da montanha e Lee embaixo.

Por alguns breves momentos as forças sulistas conseguiram romper a linha de defesa nortista, mas os nortistas estavam lutando em seu território, ou seja, lutavam para defender a sua casa, e conseguiram restabelecer sua linha de defesa. Logo o exército sulista perdeu momento, e seus sobreviventes começaram a fugir em disparada em direção ao ponto em que haviam partido.

De lá o General Lee observava o desastre através de binóculos. Ao perceber que seus homens fugiam, ele avançou até o ponto identificado pelo sinal da imagem abaixo, para receber os sobreviventes:

Enquanto os derrotados passavam, Lee dizia: “a culpa é minha rapazes, exigi demais de vocês”.

A batalha de Gettysburg foi o ponto de inflexão na guerra civil. Até ali os sulistas haviam levado a melhor. A partir dália a vantagem seria nortista, até a rendição sulista em 1865. Além das pesadas perdas o que mais debilitou o exército sulista foi a imensa perda de oficiais em Gettysburg, perda esta que nunca conseguiram repor até o final da guerra.

O campo de batalha de Getysburg é imenso. De carro gastei três dias percorrendo cada um dos pontos, lendo monumentos, tirando fotos, etc.

O local central é um museu. Quando estive lá em 2001 o museu não era muito grande, mas tinha em exibição um acervo imenso. Agora em 2011 encontrei um novo museu, imenso, com muitos filminhos, etc. (bem como a população moderna gosta), mas com a exposição de um acervo bem menor.

Na imagem abaixo a entrada para o museu:

A secessão dos estados do sul precedeu o início da guerra civil, não foram fatos concomitantes. Após a secessão o governo de Lincoln permaneceu tentando dialogar com o governo sulista. O que iniciou de fato a guerra civil foi o ataque dos sulistas ao Forte Sumter. As balas de canhão (maciças) da imagem abaixo foram utilizadas no bombardeio ao Forte Sumter:

1.1 História viva

Andar por Gettysburg é como uma volta ao passado. É possível encontrar famílias acampadas nas ruas, como na imagem abaixo (preparando o café da manhã):

É possível encontrar “soldados” acampados:

É possível encontrar “tropas” descansando:

Por fim, é possível assistir à reencenação do primeiro dia da batalha, aquele em que os nortistas recuaram em fuga pelas ruas da cidade:

2. General Custer

Gettysburg foi a primeira batalha de Custer após sua promoção a general de brigada, aos 23 anos de idade.

Até ali a cavalaria sulista havia levado a melhor sobre a cavalaria nortista. A divisão sulista de cavalaria, sob o comando de J.E.B. Stuart, era composta por 10.000 homens, conhecidos como “invencíveis”.

A cavalaria sulista chegou ao teatro de operações no dia 2 de julho. Imediatamente Lee determinou que J.E.B. Stuart e seus 10.000 homens fizessem um longo desvio para a esquerda e, a partir de um determinado ponto, convergissem em direção à retaguarda do exército da União, com dois objetivos:

a. Cortar as linhas de suprimentos do exército da União;

b. Atacar por trás a linha de defesa de cemetery ridge.

Era missão fácil para os 10.000 invencíveis. Se tivessem conseguido, o exército da União poderia ter sido aniquilado.

Mas não é à toa que Custer foi promovido a general com apenas 23 anos...

Custer sempre teve um apurado sentido tático. Ele previu o movimento sulista e, com apenas uma brigada, interrompeu o avanço de Stuart e colocou os 10.000 invencíveis para correr. A partir dali Custer venceria todos os confrontos de cavalaria sendo que em um deles seus soldados matariam o próprio J.E.B. Stuart.

Custer salvou o dia. A história ainda não deu o devido reconhecimento à sua ação nos dias 2 e 3 de julho de 1863.

3. Brinquedos

Tenho narrado aqui minhas andanças pelo mundo, sempre tentando encontrar alguma loja que venda soldadinhos. Imagine um lugar onde você tropeça nessas lojas. Imaginou? Este local é Gettysburg. Em função de ter sido palco da batalha a cidade ficou com uma forte consciência militar, de forma que por lá há soldadinhos e armas de espoleta para todos os gostos.

3.1 As quatro principais lojas de soldadinhos de Gettysburg são as seguintes:

Gettysburg Miniature Soldiers

Fica na Steinwehr Avenue. Para mim, a melhor loja, em função da gentileza dos proprietários. Contato com o John Zabawa pode ser realizado através do e mail gettysburgminiatures@yahoo.com. Eles despacham encomendas para qualquer lugar do mundo.

Abaixo imagens do interior da loja:

3.2 Tarbox Toy Soldiers

Fica na mesma Steinwehr Avenue, uma quadra adiante da loja anterior. Seu proprietário também é uma simpatia. O ponto baixo é que o acervo de brinquedos de faroeste é pequeno.

3.3 American History Store

Fica na esquina da Steinwehr Avenue com a Rua Baltimore. Em 2001 era a melhor loja da cidade (na minha opinião). Desta vez, contudo, estava com um acervo pequeno.

3.4 Antique Center

Fica na rua Baltimore. É a loja com o maior acervo de soldadinhos, possui uma infinidade de prateleiras com figuras. Contudo, foi o único lugar em Gettysburg em que fui tratado com grosseria e falta de educação. Como não dou dinheiro para grosso, não comprei nada nesta loja.

Como o site é acessado no mundo todo, vou fazer um breve comentário em inglês: The Antique Center was the only place in Gettysburg where I was treated without politness.

3.5 Feira de soldadinhos

Mas o objetivo principal da minha visita a Gettysburg nesta data específica foi para participar da feira de soldadinhos, realizada no dia 1º de maio,

O colecionismo de soldadinhos se encontra num nível muito estruturado nos Estados Unidos. Não há nenhum mês do ano em que não haja um evento para reunir os colecionadores. Por exemplo, em junho será em Hatfield, em setembro em Chicago, também em setembro em Annandale, em outubro em Fredericksburg, em novembro em Hackensack, entre muitos outros.

A organização é tão grande que o encontro de Gettysburg acabou de acontecer, e o do próximo ano já está marcado – será em 29 de abril de 2012.

Coincidência? Em 1991 eu morei nos Estados Unidos, na Farleigh Dickinson University em Hackensack, Nova Jersey. Eu morava no dormitório universitário. Pois bem, o encontro de colecionadores de Nova Jersey acontece onde? Aivinharam....na própria universidade. Parece que minha vida está sempre ligada a acontecimentos do mundo dos brinquedos.

Mas vamos ao encontro de Gettysburg. O encontro ocorreu no salão principal do Gettysburg Hotel (imagem abaixo).

A entrada ao salão só era permitida a partir das 10 horas, e custava US$6.00. Enquanto aguardavam os colecionadores podiam se deliciar com uma loja de filmes raros, entre eles muitos faroestes e filmes de guerra.

Abaixo uma imagem do salão de eventos, que falham em mostrar como era grande o salão:

Entrar neste salão foi como entrar no paraíso. Uma grande quantidade de vendedores, e uma infinidade de colecionadores. As marcas que vocês imaginarem estavam lá: Elastolin, Herald, Crescent, Britains, Timpo, King & Country, Black Hawk, Marx, e uma infinidade de outras, muitas das quais eu desconhecia.

Os soldadinhos eram de plástico e de chumbo. Eu sou colecionador de plástico, mas neste evento fui seduzido por algumas figuras de chumbo e acabei comprando.

Alguns colecionadores percorriam as mesas de venda com uma mala na mão, para irem guardando as compras.

O preço da maioria dos itens era caro, mas pesquisando bem era possível encontrar algumas ofertas.

Tirei mais de 100 fotos deste evento, mas não posso publicar todas. Segue então uma pequena seleção:

Quem já leu o artigo “Warriors of the World” pode observar na foto acima, junto ao pé direito da mesa, encostadas na parede, duas caixas de figuras que aparecem naquele artigo.

Gostaria de um dia comparecer a um vento desses junto com uma caravana de colecionadores brasileiros. Mas aqui os colecionadores são muito fechados, cada um na sua, não gostam de se reunir. Além disso, procuram muito por figuras Gulliver e Casablanca e, obviamente, não se encontra nada dessas marcas em eventos internacionais. Será que algum leitor se candidata a fazermos uma caravana para o encontro de 2012 em Gettysburg?

3.6 Diorama

Em Gettysburg está o maior diorama militar dos EUA, retratando justamente a batalha de Gettysburg. Seguem imagens:

Muita gente morreu de forma violenta em Gettysburg. Para quem do sobrenatural, há passeios guiados diários de caça-fantasmas na cidade, todos realizados à noite. Muita gente diz que consegue ver os fantasmas. Eu preferi dedicar minhas noites ao bom sono...

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Maio de 2011.





Comentários

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De: Célio Penna
Marcos, eu sou um aficionados pela guerra civil americana, infelizmente temos apenas duas litaraturas sobre o tema publicados aqui no Brasil, um ensaio de historia da coleção Primeiros passos da ed. Brasiliense e o outro um lindo e recente livro ilustrado de John D. Wright da M Books Editora, para quem quer conhecer este emblematica batalha tem um lindo filme chamodo Anjos Assassinos, produção do canal TNT, é lindo porem não tem versão em português. OK ah tambem tenho meu velho forte apache CB.


De: WAGNER
Otima descrição dos fatos históricos e impressionante o potencial do colecionismo nos EUA. Infelizmente nada temos no Brasil que relembre, nessa magnitude, a guerra do Paraguai - o maior conflito armado da America Latina.


De: Pedro Pacheco
Fantástico, brinquedo também é cultura,além de prazer. E você como ninguém prova isto.


De: Tadeu Mahfud
Não é a media dos americanos que tendem para os confederados, somente os estados confederados. é que nem perguntar pros gaúchos sobre o Estado do sul.


De: Jose Antonio Rocha
Posso ver o Forte apache da Airfix numa das fotos..Reconhecia em qualquer lado.


De: jose
guazzelli: A materia está tão impressionantemente elaborada que a recomendei para um pessoal. Parabéns


De: JOSE
GUAZZELLI: Um comentario - a impressão que tenho é que a média dos americanos tendem pros confederados em se tratando da guerra civil, por quê?


De: jose
Guazzelli Já tive problema com gente grosseira e olha que foi por causa de um jornal! Fez bem de deixar o "pilhado" no veneno e sem grana.


De: jose
O QUE EU PENSO DESTA MATERIA DO GUAZZELLI: S E N S A C I O N A L ! Uma aula de texto jornalístico. Professores deveriam usa-la como referencia.


De: Tadeu Mahfud
Além de ter o prazer de conhecer o Guazelli pessoalmente, é incrível ler as histórias narradas por ele. Uma viagem no tempo! Fantástico tema! Att.


De: Cicero Wexler Anjos
Que maravilha, qdo morei nos USA, tive o przer de ver algumas encenações como esta nas cidades de Plymonth e Acton no estado de Massachussets.


De: Geovana
Apesar de ser Mulher, eu adoro itens de faroeste e sou colecionadora e neste artigo encontrei vários dioramas maravilhos fora a matéria que é otima.


De: clinica.basile@terra.com.br
Grande viagem...tenho percorrido alguns campos de batalhas,mas a tua viagem ,descricao historica e fotos have captured my imagination...well done


De: Wladimir
Sensacional, a vontade de estar lá é enorme... quem sabe um dia ! Parabens Marcos o artigo está incrível !!


De: cassiano olegario
Marcão, uma reunião de colecionadores seria o maximo!!!!