VISITA A COLECIONADOR - 2



Leitores, sigo em viagem pelo Brasil, e sempre que viajo aqui por essas bandas fico pensando que é um desperdício os heróis dos filmes de ação americanos enfrentarem inimigos de araque, como Alien e Predador. Para serem heróis de verdade deveriam vir ao Brasil enfrentar os funcionários dos aeroportos e das nossas companhias aéreas.

Mas vamos à história – gosto e coleciono brinquedos de faroeste desde antes do ponto mais longínquo onde alcança minha memória. Contudo, como ocorre com todos nós, após atingir a idade adulta eu passei a acreditar que era o único adulto no mundo que continuava gostando de brinquedos de faroeste. E assim pensei até um dia de setembro de 2002 quando digitei “Forte Apache” no Google. Entre os primeiros links que apareceram na pesquisa estava um leilão do Mercado Livre. Acessei, fiquei maravilhado ao descobrir que ainda havia comércio de brinquedos de faroeste e, principalmente, ao constatar que eu não era o único que seguia gostando disto.

 

Através do Mercado Livre eu comecei a ter contato com outros colecionadores, trocar informações, histórias, conheci alguns pessoalmente. Mas me disseram: “se você quer saber sobre brinquedo de faroeste tem que visitar o Raul Aguiar em Belo Horizonte”. E lá fui eu, em junho de 2003, visitar o Raul. Na oportunidade fui acompanhado pelo colecionador Marcos Faria de Angra dos Reis, e juntos, os três, passamos um agradável dia de “crianças”. Abaixo está a foto daquela visita, onde eu apareço bem mais novo:

Pois bem, agora que estou fazendo esta série de visitas a colecionadores pensei que seria uma boa oportunidade de rever meu amigo Raul, afinal não nos encontrávamos há oito anos. Falei com ele e marquei a visita para um sábado, dia 19 de fevereiro de 2011.

Mas chegamos a Belo Horizonte na noite do dia 17/2. Eu tinha ouvido falar sobre um museu de brinquedos em BH, assunto que muito me interessa, e reservei a sexta-feira, dia 18/2, para conhecer o tal museu e, principalmente, tentar descobrir como ele se sustenta financeiramente.

O museu está localizado numa casa antiga na Avenida Afonso Pena. Abaixo a imagem da fachada:

O ingresso custa R$6,00 por pessoa (R$8,00 em fins de semana) e a visita é acompanhada por uma funcionária do museu. Ela faz uma apresentação sobre a história da coleção e do próprio museu. A coleção foi reunida por uma senhora que acumulou 5.000 brinquedos ao longo da sua vida. Esta senhora faleceu em 2000, e seus descendentes resolveram homenageá-la criando o museu, onde estão expostos  cerca de 700 brinquedos. Quando a funcionária terminou o discurso inicial eu fiz a primeira pergunta: “Como o museu se sustenta financeiramente?”. Ela engasgou, provavelmente por ser a primeira vez que um visitante perguntava isto. Enquanto permanecia engasgada, fiz a segunda pergunta: “quantos visitantes recebem por mês, 1000?”. Aí ela conseguiu responder: “não chega a tanto”. Voltei à carga: “se recebessem 1000 visitantes por mês arrecadariam R$6.000 de bilheteria, isto não cobre nem a folha de pagamento do museu, como se sustentam?” Ela: “é com a bilheteria e com aniversários de crianças que fazemos aqui no museu”. OK, parei de questionar para não ser muito chato. Mas na saída recebi um folheto do Museu e vi que eles possuem patrocínio do Banco Mercantil do Brasil.

O museu em si é acanhado, constituindo-se basicamente de duas salas de exposição e de uma terceira sala onde colecionadores expõem suas coleções (quando estivemos lá estava exposta uma coleção de brinquedos do Batman). A maioria dos brinquedos expostos ficam em gavetas, que precisam ser abertas uma a uma para que o visitante veja os brinquedos. Antes de vermos todas, acabamos cansados de abrir e fechar gavetas.

Manter um museu de brinquedos no Brasil é uma iniciativa heróica, que precisa ser louvada. Mas a visita deixa um pouco a desejar, pois o museu tenta cobrir todos os gêneros de brinquedos, de todas as épocas, e o espaço é muito pequeno para isto.

Na foto abaixo é possível ver as gavetas atrás de nós:

Os brinquedos que não estão nas gavetas ficam expostos ao pó e precisam ser limpos de tempos em tempos. Também ficam expostos à luz, que degrada o plástico.

O único brinquedo de faroeste da exposição (além de um boneco Playmobil) é o da imagem abaixo, identificado como sendo de procedência alemã, da década de 1950. O nome do forte é “Camp Cross Road”.

Questionei sobre os brinquedos de faroeste feitos no Brasil pela Casablanca, Gulliver, Trol e outros, e a funcionária nos respondeu que em exposição não havia nada, e ela não sabia se havia alguma coisa no acervo. Os brinquedos de faroeste brasileiros dominaram o comércio local de brinquedos por pelo menos duas décadas (60 e 70). Como é possível um museu de brinquedos no Brasil não mostrar nenhum desses itens? Na foto acima, em que aparecemos, é possível ver diversos robôs no canto superior direito. Robôs, contudo, possuem no Brasil uma história muito menos expressiva do que os brinquedos de faroeste. Enfim, deixei a dica para o pessoal do museu – coloquem o Forte Apache aí.

Sábado foi o dia da visita ao Raul. Ele, como nós, foi apaixonado por brinquedos de faroeste desde muito cedo. Por sua idade pegou as épocas da Casablanca e da Gulliver e teve diversos conjuntos das duas marcas. Como eu, ele se lembra de todos, dos momentos em que ganhou cada um, de muitas tardes agradáveis com os brinquedos, das séries de TV. Contudo, com o início da idade adulta o Raul, como muitos, deu seus brinquedos para parentes, vizinhos e creches. Viria a se arrepender depois...

O Raul é um artista do plastimodelismo, sendo que seus trabalhos são verdadeiras obras de arte e já foram premiados numa infinidade de exposições realizadas pelo Brasil. Abaixo coloquei algumas imagens, apenas para que os leitores tenham uma idéia das coisas que ele faz:

 

 

Voltando aos brinquedos...

O plastimodelismo levou Raul, em determinado momento da sua vida, a ser dono de uma loja de hobby. Um dia apareceu por lá um sujeito com uns soldadinhos ingleses da Britains. O Raul ficou louco, e fez várias propostas, mas o dono dos soldadinhos se recusou a vendê-los. Tempos depois apareceu na loja uma outra pessoa com um saco de figuras, propondo trocá-las por kits de modelismo. Quando abriu o saco, quais foram as primeiras figuras que tirou de lá? Os soldados ingleses...

O Raul achou que esta coincidência era uma mensagem do destino e, daquele dia em diante passou a colecionar figuras e tentar recuperar os brinquedos que teve na infância. Na imagem abaixo os soldadinhos ingleses que deram origem à coleção estão na caixa colocada sobre as demais:

A empresa que faz a manutenção e atualização deste site me cobra por imagem inserida. Para publicar imagens de toda a coleção do Raul eu precisaria vender a minha casa ... portanto, estou publicando apenas uma parte das imagens, para dar ao leitor uma idéia das coisas que ele tem. A base de sua coleção são os tradicionais brinquedos de faroeste, mas a coleção não se limita a isto. Há kits de plástico, soldados de guerra, super-heróis, medievais, legionários, ufa...vamos às imagens.

Há algum tempo um leitor me pediu imagens dos conjuntos Fantasma e Safari. Seguem (by Raul):

Segue a viagem no tempo:

Abaixo a imagem da raríssima figura do filhote de urso (cabeça de encaixar):

Com a palavra o Raul: “esses brinquedos são a minha vida, são a minha conexão com momentos em que fui absolutamente feliz”.

Os conjuntos Zoológico e Chaparral (imagens acima) o Raul conseguiu comprar 0 KM, numa loja de São Paulo que possuía estoque de produtos antigos (sonho de todo o colecionador).

 

 

Abaixo, duas imagens do Mini Forte Apache da Gulliver, mas de séries diferentes. Observem os leitores que uma das caixas possui o logo da Série Far West e a outra não:

Segundo o Raul, se ele ganhar na megasena vai comprar os moldes antigos da Gulliver e relançar os brinquedos. Fiquei torcendo por ele.

Independência ou Morte:

Moinho da primeira versão da Fazenda Ponderosa:

Nessa altura do campeonato penso na quantidade de imagens que vai aí acima, e acho que um pedaço da minha casa já foi ... para pagar a conta da publicação. Então, começo a encaminhar para o final...

Kung fu:

Os leitores sabiam que figuras da marca Timpo (inglesa) foram produzidas no Brasil? O Raul têm diversos Timpos brasucas:

 

Lawrence da Arábia:

Batalha do Tuiuti:

E, para finalizar, uma foto minha com o Raul, oito anos mais velha (ou mais experiente...) do que a primeira foto deste artigo:

Eu e o Raul compartilhamos as boas recordações dos tempos da infância, e temos em comum o fato de muitas vezes olharmos para este mundo moderno que o homem criou e não nos reconhecermos nele. Através da coleção de brinquedos, filmes, séries, revistas e álbuns tentamos transformar nossas casas em capsulas do tempo, lugares onde o tempo, de certa forma, parou. Enquanto o homem segue ingenuamente conduzindo o mundo por caminhos cada vez mais perigosos, da porta das nossas casas para dentro criamos a ilusão de que estamos na década de 1970.

Agradeço ao Raul por ter nos recebido e permitido a divulgação das imagens da sua coleção. Talvez em outro artigo, numa próxima atualização do site, eu coloque imagens que deixei de mostrar aqui.

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Março de 2011





Comentários

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De: Marcos Antonio Castro Pansarello
Eu também sou um colecionador, de fote apache, também monto carroças e forte apache, acho muito legal, e realmente chara, nos sentimos na década de 70, valeu abraços.


De: Almiro Rogério Ferreira
Eu tinha a coleção completa dos soldadinhos da balila e os bonecos da marvel da gulliver, acho interessante voltar a fabricar esses brinquedos, porém com certeza o inmetro vai barrardevido a segurança da crianças, só falo uma coisa, nós fomos crianças de verdade, que saudades e parabéns pela página.


De: marcelo leandro
o mais engraçado de tudo isto é que eramos felizes e não sabiamos rsrsrsr parabéns ao Raul por ter estas preciosidades aos queis muitos tive o prazer de ter, infelizmente depois de muitas mudanças e vira voltas da vida se perderam com o tempo, Agora depois de adulto estou adquirindo novamente para deixar para meus filhos uma época que as coisas eram e são muito boas. parabéns


De: ENEAS ALVES
PARABÉNS PELO TRABALHO DE VISITAR COLECIONADORES, E PARABÉNS PELO ACERVO DA COLEÇÃO. SOU UM MODESTO COLECIONADOR DE FORTE APACHE, SOU ALAGOANO, PENA QUE AINDA NÃO CONHEÇO NENHUM COLECIONADOR POR ESSAS BANDAS, SERÁ QUE SOU O ÚNICO? SE SOU O ÚNICO, SOU COM TODO PRAZER... TODOS OS DIAS VISITO ESSE SITE... PARABÉNS


De: marcos Lopes (erasurelopez@hotmail.com)
Tudo o que vi e li nesse site me deu uma alegria muito grande, sou colecionador de brinquedos antigos também. Tenho Forte Apache, que só consegui adquirir depois dos 30... abs e parabéns


De: J.Nilton
Grande reportagem, excelente coleção, parabéns.


De: gilberto de fatima resende
Marcos, trabalhe a idéia do museu com o Raul. Ele seria o cara ideal para a gestão deste.


De: Flávio Delaqua
Pessoal, o que foi mostrado é apenas uma pequena fração da coleção do Raul. Vale a pena conhecer o restante.


De: jose
Guazzelli, Permita ao Raul que ele possa escrever e enviar artigos e fotos. "É o cara"!


De: Wagner de Azevedo Marques - Brinqtoys
Ola Marcos ! Excelente artigo com esse nosso admiravel amigo Raul com uma maravilhosa coleção de play sets rarissimos ! Um abraço


De: Flavio Delaqua
Arrebenta Raaaauuuulllllll!!!!!!


De: jose
Raul, superou!


De: Marcelo
Quanta raridade! Fiquei babando com essa caixa do Fantasma, show de bola!


De: Stephan
Ô chefe,concordo em gênero,número e grau com tudo o que dissestes! Realmente a década de 70 foi inesquecível,e quem a vivenciou sente muita saudade.


De: Cicero Wexler Anjos
Puxa vida Raul, moro tão pertinho de vc (em Ipatinga) e não sabia da sua coleção, gostaria muito de visitá-lo, parabéns.


De: Pedro luiZ Malaspina
É como entrar numa máquina do tempo,dos bons tempos!!!a AMERICANAS era a minha MECA qdo pequeno e ver tudo isto é maravilhoso!!!abraços "SOLDIER BLUE"


De: dmfinamor@hotmail.com
me manda o enderelço da loja! antiga! abração!


De: Marcos Claudino
Só tenho uma frase....Que maravilha de coleção, parabéns ao Raul por conservar essa parte histórica de nossa infância.


De: joao henrique
Que inveja...Também estou torcendo pro Raul ganhar na mega sena.


De: Tadeu Mahfud (TedDbest)
Que visita hein...e que coleção!!! de cair o queixo! Lindo ver os sets impecáveis em suas caixas.


De: Fabiano Alves
Também vivo essa saudade da infancia, da decada de 70. Minha histórias com as figuras de faroes é bem parecida e deste artigo.


De: pap
A lamentar profundamente que a gulliver nao consegue perceber o quanto perde nao voltandando a produzir os grandes brinque dos do passado.


De: Raul Aguiar
PASSEI EXCELENTES HORAS RELEMBRANDO A ÉPOCA QUE EU ERA FELIZ E SABIA,NESTA SUA VISITA AQUI ,ESPERO QUE SE REPITA! MUITO OBRIGADO MARCOS,TUDO DE BOM!