GENERAL CUSTER



General Custer – breve texto

Uma coisa pelo menos devo ao General Custer. Sempre detestei o idioma inglês. Na escola eu era um fracasso nesta matéria. Quando fiz o vestibular em 1986, a primeira etapa era chamada de Provão, e uma das condições de aprovação para a etapa seguinte era não zerar em nenhuma matéria. Entrei em desespero com a prova de inglês. Eram 20 questões objetivas e pensei que se eu tentasse responder poderia, sim, zerar. Decidi marcar todas as respostas na alternativa “c”, “acertei” 3, não zerei, e acabei, por fim, passando no vestibular. Mas eu tinha vontade de estudar a vida do General Custer e, pesquisando muito no Brasil, encontrei apenas uma obra em português, uma bobagem escrita pelo Dee Brown chamada “Massacre”. Além disso, algumas matérias publicadas em revistas, como a Enciclopédia Bloch, além da revista em quadrinhos sobre a qual falei na atualização de novembro. Não me restou outra alternativa, precisei aprender inglês.

Um comentário recebido aqui no site pediu para eu falar um pouco sobre o perfil do General Custer. Já disse em texto anterior que para falar sobre Custer, com alguma consistência, precisaria de, no mínimo, dezenas de páginas. Mas para não deixar o leitor completamente desatendido, escrevo alguns breves comentários.

Acho que ninguém (ou apenas uns poucos) nasce e vive com pretensão de entrar para a história. Ao contrário, creio que é a história, ou o destino, que escolhe alguns. Neste caso, mesmo à revelia da sua vontade, o General Custer foi escolhido para entrar para a história. E uma vez que alguém entra para a história, está condenado para sempre a ser adorado por uns e odiado por outros. Não foi diferente com o General Custer.

Filho de família pobre, tinha por objetivo entrar para a Academia Militar de West Point. Não tanto pela carreira militar em si mas, principalmente, pela educação de boa qualidade que lá receberia, educação esta que sua família não tinha condições de pagar em uma escola privada.

De temperamento rebelde, acabou se formando em último lugar entre os membros de sua turma, e faltou muito pouco para que não fosse expulso da academia antes da formatura. Atropelado pelos eventos históricos desde cedo, acabou se formando um ano antes do previsto em função da eclosão da guerra civil  americana e da necessidade urgente de oficiais no front.

Quando estourou a guerra civil americana os Estados Unidos estavam há muito tempo sem se envolver em confrontos militares relevantes, à exceção dos poucos confrontos ocasionais com índios. Desta forma, os altos oficiais estavam acostumados ao conforto de suas poltronas almofadadas, e pouco afeitos à ousadia que é necessária para vencer uma guerra. Neste cenário de oficiais de muito discurso e pouquíssima ação, Custer logo se destacou. Tanto que aos 23 anos foi promovido a general de cavalaria (general de brigada, de uma estrela. Antes do fim da guerra ele seria promovido a general de divisão, com duas estrelas).

A participação dele na guerra civil americana é suficiente para encher muitos livros. Apenas para que os leitores menos familiarizados tenham uma idéia, foi o seu comando que recebeu a mensagem de rendição dos confederados. Os termos de rendição foram redigidos e assinados sobre uma mesa em Appomatox. Ao final da cerimônia de rendição o General Sheridan, comandante supremo das forças de cavalaria, adquiriu esta mesa histórica e deu de presente para a esposa de Custer, com a seguinte mensagem: “nenhum homem fez tanto por este resultado quanto o seu marido”.

Não deve ser fácil para a cabeça de um jovem de 25 ser general de divisão e herói nacional de guerra, conhecido e idolatrado por todo um povo. Pior, com a guerra vencida, terminada, havia uma condenação sobre este jovem – por mais que vivesse 100 anos, seria impossível que os 75 anos seguintes superassem em emoção e glórias os 4 anos anteriores. Eu não consigo me imaginar convivendo com a certeza, aos 25 anos, de que a minha vida futura será mais medíocre do que a minha vida pregressa.

Para piorar, cerca de um ano após o encerramento da guerra civil a comissão de general de divisão, concedida a título provisório em tempo de guerra, expirou e Custer voltou a ser apenas um capitão.

Não deve ter sido um período fácil. Neste momento, característico de um jovem que está perdido e não sabe o que fazer, Custer começou a atirar para vários lados – tentou obter colocações na vida civil, que lhe permitissem deixar o exército, e tentou integrar o exército mexicano, como general, mas o governo americano não lhe liberou.

Frustrado, acabou aceitando o posto de tenente coronel na recém formada 7ª cavalaria. O posto de comandante de um regimento de cavalaria cabe a um coronel. Desta forma, Custer nunca foi o efetivo comandante, apenas o comandante interino, já que os coronéis comandantes sempre foram mantidos afastados, em posições burocráticas.

Em quatro anos de guerra civil, Custer foi de tenente a general de divisão. Nos 10 anos seguintes, em que atuou no oeste, não recebeu mais nenhuma promoção. Promessas ele teve, várias. Se massacrasse os índios na campanha do Washita, seria coronel. Não foi. Quando o coronel comandante da 7ª cavalaria fosse para a reserva ele assumiria o lugar. Não assumiu.

A performance de Custer nas operações contra os índios sempre foi, se não brilhante, pelo menos acima da média em relação aos demais comandantes militares. No entanto, militares vivem em função de promoções, e imagino que a ausência de promoções foi, com o tempo, se transformando em mágoa, frustração e ressentimento.

Até que chegou o dia da batalha do Little Big Horn. Custer estava ali cumprindo o seu papel de soldado. É claro que ele desejava obter uma grande vitória. Qual militar não deseja? É claro que ele desejava ficar com os louros da vitória? Qual militar não deseja? Mesmo assim, e com base nas obras que li, que vão desde os autores que odeiam Custer até os que o idolatram, eu consigo justificar quase todas as decisões dele naquele dia, dentro da lógica militar.

Como Getúlio, Custer saiu da vida para entrar na história. Getúlio parece ter desejado isto. Custer não, estava ali cumprindo seu papel de soldado. Queria uma vitória, queria uma promoção, e queria continuar sua vida ao lado da mulher que amava. Foi a história que lhe escolheu. A batalha do Little Big Horn se converteu num dos eventos mais conhecidos da humanidade, e o local onde ocorreu é até hoje uma das principais atrações turísticas dos Estados Unidos. Isto fez com que muitos historiadores de certa forma ignorassem tudo o que Custer fez nos 15 anos em que foi oficial, e concentrassem todo o julgamento sobre sua personalidade apenas nas suas ações do dia 25 de junho de 1876. Viveu 37 anos e foi substancialmente julgado por apenas um dia.

Como ocorre com quase todos os comandantes militares, há os que acham que ele era um idiota e há os que acham que ele era um gênio. Eu acho que ele era apenas um ótimo soldado, tentando fazer o seu trabalho da melhor forma possível.

Seguem imagens dos meus “Custers” de brinquedo:

General Custer de chumbo:

(observação: o Custer acima é da Britains).

General Custer da Reamsa, espanhol:

General Custer da Britains, inglês:

General Custer da DSG, argentino:

General Custer da Viocema, brasileiro:

General Custer da Sideshow, com roupa de couro autêntico:


General Custer de fabricante desconhecido, adquirido na cidade de Hardin, a poucos quilômetros do local onde ele morreu:

Custer da Diedhoff, alemão:

Outro Custer da Diedhoff:

 

“Custers” que eu não tenho:

Custer da Comansi, espanhol:

Custer do filme Uma Noite no Museu 2:

Imbecilidade – há informação na internet de que o lançamento, pelo McDonald’s, da figura acima revoltou as nações índias nos Estados Unidos. Palhaçada. Se não gostam do personagem, não são obrigados a comprá-lo. Mas na era da ditadura do politicamente correto não basta eu não comprar o que não gosto. É preciso impedir que o que eu não gosto sequer venha a existir. E o idiota aqui (eu) chegou a imaginar que o século XXI seria um século de liberdade...

Custer da Sideshow:

Custer da Marx:

Custer da Pedigree:

Custer da Andrea Miniatures:

 

 

(observação: o Custer acima é da Black Hawk, marca da Andrea Miniatures).

Custer da Timpo:

Saudades da infância ... não sei se vocês lembram, mas na década de 70 havia uma “febre” de Transfer e Kalkitos. Tive inúmeros, comprava nas bancas de revista e nas livrarias. Infelizmente, com o tempo tudo foi se perdendo, e consegui guardar apenas um exemplar de cada. O exemplar de Transfer que restou é dos personagens da Disney. O kalkitos que consegui preservar (imagem abaixo) é o do General Custer:

 

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Janeiro de 2011

135 anos após a batalha do Little Big Horn





Comentários

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De: Rodolpho Neto
George Custer andando de Moto como vi em uma das Fotos como ? naquela época o meio de Transporte eram cavalos Carroças e o mais moderno na época eram os Trems


De: Paulo R. Silva Pereira
George Armstrong Custer é um dos meus personagens históricos favoritos. É um absurdo e um engano enorme chamá-lo de idiota. Para se tornar general tão jovem como ele se tornou, de idiota não tinha nada. Foi um bravo da mesma maneira que Cavalo Doido também o era. Para desbravar o oeste naquela época ser bravo era para poucos. Pena que não era politicamente correto o que fazia, más, para os Estados Unidos serem o que são hoje, sacrifícios tinham que ser feitos. Parabéns Marcos por lembrar de Custer!


De: Marcos Guazzelli
Fico imaginando os anos que o Givaldo (do comentário abaixo) dedicou ao estudo do tema para chegar à conclusão que ele sintetizou de forma tão brilhante no seu comentário...Com certeza o Givaldo não é um "indiota". É uma mente brilhante à procura de temas que possa iluminar com sua sabedoria. Obrigado Givaldo.


De: givaldo
o general Custer devia ser um grande indiota e você por adimira-lo tanto deve ser um também.


De: Wolf
Aos controladores atuais da mídia lhes interessa abafar assuntos como guerras e guerreiros, evitando despertar o natural instinto do homem, mas ele apenas adormece sob a pele e desperta em vários momentos, como vemos atualmente ao redor do mundo. Custer era um soldado regular com uma agressividade extra, mas falhou em coletar informações sobre seus inimigos e sua falta de um quadro completo do que tinha pela frente o levou ao desastre ao dividir suas forças para tentar cercar o que imaginou ser um pequeno número de indios e suas famílias. Imagino a surpresa dele quando surgiram milhares deles a sua frente, foi um massacre.


De: Tadeu Mahfud (TedDbest)
Adorei. Cresci muito escutando histórias e vendo filmes que relataram o Gen. Armstrong Kuster. Adorei as figuras! parabéns!


De: Jean Carlos C.
Caro Marcos: fui eu o "chato" que sugeriu um artigo sobre o Gen. Custer, hehehe. Agradeço pelo excelente texto, muito informativo e isento. Abraço!


De: Jean Carlos C.
Caro Marcos: fui eu o "chato" que sugeriu um artigo sobre o Gen. Custer, hehehe. Agradeço pelo excelente texto, muito informativo e isento. Abraço!


De: Jean Carlos C.
Quanto ao Custer em "Uma Noite no Museu 2": não bastasse retratarem o bravo general como um tolo, ainda querem apagá-lo da História? Francamente!...


De: jose
Guazzelli, Pq a gulliver/casablanca simplesmente "ignora" os anos 60 e 70? Efeito-ditadura ou quer ser politicamente correta?


De: jose
Guazzelli, Pq a gulliver/casablanca simplesmente "ignora" os anos 60 e 70? Efeito-ditadura ou quer ser politicamente correta?


De: JOSE
Guazzelli: Sugiro a leitura do livro "enterre meu coração na curva do rio" de Dee Brown.


De: marco antonio s. almeida
muito bom,conheço e tenho muitas das figuras de custer,tb fiquei surpreso com o exemplar do Kalkitos,que tb possuo,legal!!!!


De: deivid finamor
ótimo só faltou o gulliver! o da andrea miniatures é o melhor! até meio arrogante! devia combinar com o custer! auhsuashsahsuhsausahashuas


De: deivid finamor
ótimo só faltou o gulliver! o da andrea miniatures é o melhor! até meio arrogante! devia combinar com o custer! auhsuashsahsuhsausahashuas


De: Marcos Avellar
Adorei as figuras do Custer,nunca pensei em colocá-los todos juntos, só vc mesmo para ter essa idéia brilhante, vou tentar conseguir o Comansi pra vc.