PELO OESTE



Na vida há gostos prá tudo. Ainda bem, é esta diversidade que nos faz uma sociedade plural. Há aqueles que gostam de esporte, de carros, de cerveja, de jogos, de roupas, de relógios, de jóias, etc.

Eu gosto de faroeste...

Não sei de onde vem este gosto, pois é anterior ao máximo que minha memória consegue alcançar. Poderia pensar que decorre dos filmes e séries de televisão, mas quantos assistiram a estes mesmos filmes e séries, e quantos preservaram o gosto pela coisa? O fato é que eu gosto de faroeste. E me sinto bem quando ando pelas terras do oeste americano. Já combinei com minha esposa que se um dia ganharmos uma mega-sena acumulada compraremos um sítio em Montana. Agora só falta ganhar...

Mas entre todos os temas, aspectos e personagens do velho oeste o que mais me fascina é o General Custer. De onde vem esta preferência? Mais uma vez ela é anterior ao máximo que minha memória consegue retroagir. Lembro de um episódio, lá pelos idos de 1974, acho, antes ainda de eu aprender a ler, onde estávamos eu e minha avó em frente a uma banca de revistas no balneário de Capão da Canoa. Na vitrine da banca havia uma revista que, se minha memória ainda funciona, trazia na capa um desenho do Cebolinha (ou seria o Cascão?) com chapéu de cowboy. Não tive dúvida: “vó, quero a revista do General Custer”. A lá foi minha vó discutir com a moça da banca: “eu quero a revista que tem o General Custer na capa”. Não me recordo como isto terminou...

No ano seguinte, 1975, a cena se repetiu, só que desta vez era o General Custer mesmo. A imagem abaixo é da capa da revista que fiz minha avó comprar em 1975 (o exemplar da imagem é o mesmo que ganhei naquela época, mas ao longo dos anos fui adquirindo mais exemplares – repetidos – desta revista, de forma que hoje possuo vários. Coisa de maluco).

 
É uma revista em quadrinhos de autoria de Rino Albertarelli, produzida na Itália pela Editora Bonelli (Tex, Zagor, Mágico Vento) e lançada no Brasil pela saudosa Ebal. Em se tratando de uma obra em quadrinhos, é excelente. Como só aprendi a ler lá pelo segundo semestre de 1976, durante mais de um ano eu só conseguia ver as figuras. Mas foi esta revista que me introduziu de fato nos aspectos reais da vida do General Custer. Atualmente, 35 anos depois, minha biblioteca tem mais de 30 livros sobre a vida do General.

Longe de ser um especialista, acumulei muitas informações sobre a vida do General, e formei minha opinião em relação a diversos aspectos polêmicos da sua trajetória.

Mas foi na revista acima que tomei conhecimento da existência da batalha do Washita. Para os leitores que não são familiarizados com esta história, vou fazer um breve resumo. Mas alguns fatos que ocorreram nesta batalha, travada em 1868, acabariam selando o destino do General Custer e da 7a cavalaria 8 anos depois, na batalha do Little Big Horn. Vamos aos principais fatos:

Na segunda metade da década de 1860 o atual estado do Oklahoma era território índio, assim definido pelo tratado de Medicine Lodge. No entanto, os nativos não se limitavam às fronteiras do seu território, e aproveitavam os meses de primavera e verão para promover ataques nos estados vizinhos – Kansas e Colorado. Agiam com a razoável certeza de que não seriam pegos, pois enquanto eram ágeis nas fugas as tropas de cavalaria eram lentas nas suas movimentações. O General Custer liderava contingentes nessas perseguições, mas os resultados eram bisonhos.

Com a chegada do outono e do inverno os índios se refugiavam no seu território, com a certeza de que não seriam importunados, pois era impensável a realização de uma campanha militar em meio à neve.

Foi então que o General Sheridan teve uma idéia – o exército precisaria atingir os índios enquanto estavam recolhidos nos acampamentos de inverno. Seria uma forma de conseguir pegá-los antes de escaparem e, ao mesmo tempo, mostrar que dali para a frente não poderiam mais contar com a tranqüilidade dos meses de inverno.

Para comandar esta missão o General Sheridan queria o General Custer, que se encontrava afastado do exército, cumprindo um ano de suspensão por decisão de uma corte marcial (esta é outra história). Custer foi chamado de volta, reinstalado no comando da 7ª cavalaria, e recebeu ordens precisas de Sheridan: encontre os índios e cause o maior dano possível.

As tropas partiram em novembro de 1868 em direção ao território índio, em meio a muita neve. Numa certa altura construíram um forte para servir como base para estocagem de suprimentos. Este forte foi denominado Camp Supply, e hoje a uma cidade no mesmo lugar com este nome.

Entre os guias/batedores de Custer havia índios Osages e o famoso Califórnia Joe.

Na noite do dia 26 de setembro de 1868 os batedores encontraram um acampamento de índios localizado às margens do rio Washita. Naquele momento, não sabiam que índios estavam acampados ali. Sabiam apenas que as ordens eram claras – encontrar e atacar.

Custer dividiu sem comando em quatro unidades, e as tropas passaram a noite do dia 26 para 27 se movimentando para cercar o acampamento a partir de quatro direções diferentes. Todo este movimento consumiu horas, e teve que ser feito em completo silêncio. A ordem de Custer era para atacar ao alvorecer do dia 27. Depois desta batalha, inclusive, alguns índios passaram a se referir a Custer como “son of the morning star”.

Ao alvorecer do dia 27 Custer deu a ordem de atacar e os quatro esquadrões de cavalaria iniciaram a carga ao som de Garry Owen. A música, no entanto, foi tocada por poucos minutos, pois loco a saliva dos músicos congelou dentro dos instrumentos.

Os índios foram pegos totalmente de surpresa e os guerreiros começaram a fazer uma ação de defesa, enquanto mulheres e crianças tentavam escapar para a mata e montanhas ao redor. Foi um massacre.

Num determinado momento da batalha o Major Eliott, então 2º em comando da 7ª cavalaria, liderou um grupo de 18 homens em direção aos índios que fugiam. Gritou algo que, numa tradução não literal, seria: “me sigam e vamos conseguir uma promoção ou um caixão”. Eliott não voltou mais.

Com o desenrolar da batalha as montanhas ao redor do acampamento começaram a se encher de índios, milhares deles. Foi então que os militares perceberam que o acampamento que atacaram era apenas o primeiro de uma série de quatro. Era o menor deles. Ao longo do rio Washita, por uma extensão de 16 quilômetros havia 3 imensos acampamentos de índios.

Os índios estavam vindo desses acampamentos e se concentrando nas montanhas, em preparo para convergir em direção ao acampamento. Se este ataque tivesse ocorrido, possivelmente Washita teria sido para Custer e para a 7ª cavalaria o que o Little Big Horn acabou sendo 8 anos depois.

Uma vez que todos os guerreiros do acampamento atacado foram mortos, e as mulheres e crianças sobreviventes haviam sido feitas prisioneiras, Custer deu ordem para que os soldados matassem toda a manada de cavalos dos índios – 800 cavalos. Esta ordem pode ter parecido chocante, mas na realidade daquele período fazia sentido – Custer não tinha como levar 800 cavalos consigo em meio à neve, e não podia deixá-los para os índios, pois o cavalo era o instrumento de batalha dos guerreiros.

Como a concentração de guerreiros nas montanhas próximas não parava de crescer, Custer decidiu ordenar a retirada. Neste momento nasceu a divisão no 7º de cavalaria, divisão esta que contribuiria para a tragédia de 8 anos depois. Um grupo de soldados e oficiais, liderados pelo capitão Benteen, se rebelou contra a ordem de Custer, dizendo que não poderiam deixar o campo de batalha sem saber o que tinha havido com Eliott e seus homens. Custer respondeu que se eles não haviam retornado até então era porque já estariam mortos, e que ele não poderia comprometer a segurança do regimento todo, que estava na iminência de ser atacado, em função de 19 homens.

Custer confirmou a ordem para retirada e executou um movimento que, no meu entender, teve um pouco de genialidade militar. Apesar de a ordem ser para retirar, ele formou as companhias em direção aos demais acampamentos índios e deu ordem de marcha para ataque. Vendo isto, os índios que estavam nas montanhas abandonaram suas posições e correram para proteger suas famílias. Custer, então, deu a ordem de meia-volta, e deixaram o campo de batalha sem serem importunados.

Dias depois voltaram ao local da batalha, em companhia do General Sheridan, e encontraram os corpos de Eliott e seus 18 homens, mortos em círculo.

Do ponto de vista militar esta ação foi tão eficiente que já no ano seguinte, 1869, todos os índios rebeldes estavam confinados em reservas e os contingentes militares foram transferidos para outras regiões do país.

As conseqüências para o Little Big Horn:

- Como escrevi, a divisão na 7ª cavalaria nasceu nesta batalha. Daí até o ano 1876 ela só se aprofundou. Por azar de Custer, o acampamento que atacou era de cheyennes do chefe Chaleira Preta, que era o chefe mais pacifista entre todos. Não obstante, os guerreiros jovens da tribo realizavam ataques sem se importar com a opinião de Chaleira Preta. Só que atacar um acampamento de um chefe pacifista foi utilizado como ferramenta de mídia para chamuscar a imagem de Custer. Benteen sempre liderou a oposição a Custer dentro da 7ª cavalaria e, na época do Little Big Horn, nem no mesmo forte eles ficavam. Custer ficava no Forte Abraham Lincoln com 6 companhias e Benteen e Reno ficavam no Forte Rice com outras 6 companhias. Durante a batalha do Little Big Horn, imediatamente antes de ordenar o ataque para as 5 companhias que estavam sob seu comando, Custer enviou ordem escrita para que Benteen, com 3 companhias, se unisse a ele o mais rápido possível. Benteen recebeu a ordem, mas decidiu ignorá-la. O resultado, sabemos qual foi. Esta ordem está em exposição no museu da Academia Militar de West Point, e estive lá para vê-la no ano 2001. De uma certa forma, Benteen decidiu dar no Little Big Horn o troco pela ação de Custer em 1868 – abandono dos companheiros (na opinião dele).

-  Antes do ataque ao acampamento do Little Big Horn Custer dividiu seu comando em 4: Custer, Benteen, Reno e pack train. Reno recebeu a ordem de atacar imediatamente, Benteen recebeu a ordem de partir em patrulha em direção às montanhas próximas para ver se havia outro acampamento (não havia nenhum). O pack train ficou para trás, enquanto Custer prosseguiu com 5 companhias para atacar o acampamento pela extremidade oposta àquela que seria atacada por Reno. Posteriormente ele ainda dividiria seu contingente em mais dois esquadrões, de 2 e 3 companhias. O envio de 3 companhias para fazer o reconhecimento (Benteen) é considerado por parte da crítica como um dos movimentos mais estúpidos de Custer naquele dia. Ouso discordar. Em 1868 Custer não fez este reconhecimento durante o Washita e colocou o seu regimento numa situação de risco de aniquilação. Em 1876 ele havia aprendido com este erro e ordenou o reconhecimento, às custas do enfraquecimento de suas forças. Em minha opinião seu erro foi ter colocado Benteen, um oficial hostil, no comando deste destacamento. Deveria ter colocado um oficial de confiança, que viria ao seu encontro assim que fosse chamado.

Minha admiração pelo General Custer tem me levado a viajar para conhecer lugares que fizeram parte da sua vida. Já estive três vezes no Little Big Horn, estive em Gettysburg, onde pela primeira vez ele se destacou como general de cavalaria, estive na casa dele no Forte Lincoln e estive no seu túmulo em West Point. Ainda falta conhecer alguns lugares. Em outubro último estive com minha esposa nos Estados Unidos e aproveitamos para visitar o Washita, que fica na cidade de Cheyenne, no Oklahoma. Seguem algumas imagens:

A primeira imagem é da entrada do parque, a cerca de 3 quilômetros a oeste da cidade de Cheyenne:

 

A segunda imagem é de uma placa, onde há um resumo dos fatos:


Trilhas abertas pelo meio do capim nos permitem caminhar pelo solo onde se desenrolaram os acontecimentos:


Na imagem abaixo estou na margem do rio Washita. Muitos índios entraram até a cintura nas águas semi-congeladas do rio para utilizar a barranca como proteção. Dali tentavam responder ao fogo dos soldados.

 

A imagem abaixo é para ter uma idéia do tamanho do acampamento. Eu estou na margem do rio, de costas para ele. O acampamento iniciava ali e ia até a linha de árvores que pode ser vista ao fundo.


A imagem abaixo mostra os movimentos da cavalaria e dos índios naquele dia:


A imagem abaixo foi fotografada a partir de uma montanha próxima. O acampamento cheyenne ficava entre as duas linhas de árvores, sendo que a linha de árvores ao fundo é a margem do rio.


Após a visita ao Washita, dirigimos em direção ao Colorado, cruzando um pedaço do Texas. No Colorado nossa primeira parada foi no município de La Junta, para visitarmos o Forte Bent (imagens abaixo).


 

O Forte Bent é um local histórico, tombado pelo governo dos EUA. Quando estivemos lá não havia outros visitantes e estava bem tranqüilo. Um homem e uma mulher tomavam conta do local, e deu para conversar com eles com toda a tranqüilidade.


O Forte Bent serviu mais como posto comercial mas, em alguns momentos de sua história, também abrigou tropas militares.

O forte é feito de adobe, mesmo material do Fort Navajo (ver artigo “Aquele Verão de 1980”).

Abaixo uma foto da loja de souvenir do forte. Para encontrar brinquedos de faroeste, recomendo a Espanha, ou a Alemanha, não os Estados Unidos. Encontramos apenas figuras da Schleich (que já tenho todas) e algumas figuras chinesas sem tinta. Nem revólveres de espoleta encontrei desta vez. Se alguém quiser encontrar figuras nos EUA tem que ir à cidade de Gettysburg.


A próxima parada desta curta viagem foi a cidade de Colorado Springs. Eu conhecia a fama desta cidade porque o famoso inventor Tesla viveu lá por algum tempo, mas não há nenhum museu sobre o trabalho dele na cidade.

Há atrações interessantes na cidade, construções dos Anasazi, formações rochosas. Em relação a faroeste visitei o Ghost Town Museum (imagem abaixo):


Já vi muitas diligências, mas a que está na imagem abaixo foi a mais antiga que encontrei. É de 1968 e serviu à Wells Fargo por 40 anos. O interessante é que transportava 13 passageiros: 4 em cada um dos dois bancos internos, 3 num banco situado entre os dois bancos das extremidades. As pessoas que sentavam no banco do meio ficavam entre as pernas dos demais passageiros, e havia uma tira de couro para encostarem as costas. Por fim, dois passageiros viajavam do lado de fora, num assento que pode ser visto acima do bagageiro traseiro.

 

Em Colorado Springs ficam o museu e loja do artista Michael Garman (site na imagem abaixo).


Abaixo uma das páginas do catálogo de obras o Michael Garman. Suas esculturas são colecionadas até pelos presidentes americanos. Eu trouxe três esculturas pequenas, de cowboys.


Passando por uma galeria de artes, vi um belo quadro. Como não podia comprá-lo, tirei a foto abaixo disfarçadamente...

A última parada da viagem foi a cidade de Denver, capital do Colorado. Nela está localizado o Museu Buffalo Bill.

Na imagem abaixo, do museu, o cocar e o arco e flecha teriam pertencido a Touro Sentado (que foi artista no circo de Buffalo Bill por alguns meses).

Na imagem abaixo o cabelo branco é de Buffalo Bill e o cabelo loiro é de Wild Bill Hicock:

Na imagem abaixo, eu pagando um mico...

Na imagem abaixo, a sepultura de Buffalo Bill:



Por fim, para quebrar a “ditadura” da Schleich, na loja de souvenir do Museu Buffalo Bill havia figuras da Britains:


Bom, essas foram as imagens que achei interessante compartilhar com os leitores do site.

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Novembro de 2010





Comentários

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De: mcminiaturas@ig.com.br
faço miniaturas na escala 60mm sobre o tema, alguem teria o filme "Son of the morning star". http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-169903620-soldado-setima-cavalaria-batalha-de-little-big-horn-_JM


De: Luiz Pizzutti
Sem querer ensinar o Pai Nosso ao Vigário, e nem chover no molhado, recomendo o filme Winchester 73, com James Stwart, que aborda o tema também.


De: Dinilson
tive as 4 rev (Earp,the Kid,Custer,Geronimo). E o episodio do tunel do tempo?


De: Jean Carlos
Seria interessante um artigo sobre a personalidade do lendário Gal. Custer, infelizmente muito contestado pela turma do politicamente correto. Abraço!


De: Jean Carlos
Caro Marcos, seus artigos acerca de suas viagens ao oeste americano são excelentes, sinto como se eu também estivesse visitando esses lugares!


De: Luiz Carlos Pagliarini(Paglitoys)
Parabéns Marcos, está viagem deve ter sido muito agradável e muito rica para seus conhecimentos. Abraços.


De: dmfinamor@hotmail.com
os dioramas da Schleich são outros 900! muito 10!