FRAGMENTOS DA HISTÓRIA



Reconstruir a história dos brinquedos de faroeste no Brasil seria relativamente fácil, uma vez que esta história é basicamente ligada à atuação empresarial da família Lavin no Brasil. Bastaria os membros da família narrarem sua história, aqui neste site, no próprio site da Gulliver, ou em qualquer lugar que desejassem. Mas não é o que ocorre. Parece que têm vergonha da sua história de sucesso no Brasil, e recusam até pedidos de entrevista. O que é um direito deles.

Desta forma, temos que tentar reconstruir esta história com base nas informações da memória dos colecionadores de brinquedos (e há uma infinidade de informações espalhadas ao longo de diversos artigos deste site), ou de pessoas que, de alguma forma, trabalharam para a Casablanca e/ou Gulliver, como foi o caso da entrevista com pintores de figuras (Enciclopédia do Forte Apache – volume 1) e da entrevista com o Nelson Reis (atualização de novembro de 2007).

Em agosto de 2010 recebi contato através de e mail de uma pessoa que foi testemunha ocular dos primórdios da Casablanca. Conversamos por telefone algumas vezes, e no dia 18 de setembro de 2010 passei o dia em São Paulo visitando locais históricos, acompanhado por minha testemunha.

Minha testemunha deseja permanecer anônima, então ao longo do texto será identificada como “Senhor X” (para dar um ar misterioso, de Ian Fleming, ao texto...).

Como o Senhor X conviveu intimamente com membros da família Lavin, entre as histórias que me contou há fatos que pertencem exclusivamente à vida privada da família, sem nenhuma correlação com a Casablanca. Tais fatos serão, obviamente, omitidos deste texto.

O Senhor X é filho de um imigrante espanhol, assim como a família Lavin também veio da Espanha. O pai do Senhor X chegou ao Brasil em 1953. O Senhor X nasceu em 1957. A família Lavin também chegou ao Brasil no final da década de 1950. Muitos espanhóis vieram para o Brasil na época, vários deles eram exilados políticos, que haviam deixado a Espanha em função de incompatibilidade com o regime do General Franco. Outros apenas buscavam condições melhores de trabalho.

Muitos desses imigrantes espanhóis residiam na Mooca, em São Paulo, formando ali uma espécie de colônia espanhola, num bairro tradicionalmente italiano.

A família do Senhor X residia numa casa localizada na rua do Oratório, quase esquina com a rua Visconde de Inhomerim. A antiga casa da família do Senhor X pode ser visualizada na imagem abaixo. É a segunda casa a partir da esquina, a casa amarela, com pichações. Com o tempo a casa mudou de proprietário e foi ampliada. Nos anos 1960 a fachada da casa não vinha até a calçada. Havia quintal e jardim na parte da frente.

Do outro lado, exatamente na esquina, em posição diametralmente oposta à casa do Senhor X, fica o prédio onde residia a família Lavin, o qual pode ser visualizado na imagem abaixo.

À direita do prédio, onde a construção fica branca, era o Cine Patriarca da rua do Oratório. Atualmente é um estacionamento.

As famílias de imigrantes espanhóis eram muito próximas, e viviam em comunidade, como era comum no Brasil até os anos 1970. Todos da redondeza se conheciam e se freqüentavam.

A proprietária da residência onde morava o Senhor X era sua avó materna. Era bastante comum nos anos 1950 e 1960 faltar água na rua do Oratório, mas este problema ocorria do lado da rua onde ficava o prédio dos Lavin. Desta forma, sempre que havia falta de água o senhor Mariano Lavin buscava água com balde na residência do Senhor X.

A família Lavin era composta pelo senhor Mariano, sua esposa Candida, e dois casais de filhos, sendo o filho homem mais velho o Luis Lavin, atualmente proprietário da Gulliver. Todos residiam no mesmo apartamento.

Eram tempos de dificuldades financeiras, comum aos imigrantes logo após sua chegada ao Brasil. O andar térreo do edifício dos Lavin era composto por lojas comerciais. Uma delas era locada pelo senhor Mariano, e nela ele instalou uma lanchonete, onde o ponto alto era o autêntico churro espanhol. A lanchonete do senhor Mariano ficava num dos espaços comerciais da imagem abaixo, com frente para a rua Visconde de Inhomerim, mas o Senhor X não consegue recordar em qual espaço exatamente.

O senhor que aparece de costas na foto é o Senhor X.

Abaixo, a foto da porta do prédio, que dava acesso ao apartamento da família Lavin.

A lanchonete do senhor Mariano era ponto de encontro dos imigrantes espanhóis e seus filhos, que lá se reuniam para saborear o churro.

O senhor Mariano comentava com amigos que trouxe consigo da Espanha figuras de plástico de índios e cowboys, e que seu sonho era produzir estas figuras no Brasil, mas para isto lhe faltava um detalhe importante – o capital.

Um dos imigrantes espanhóis, o mais bem situado financeiramente, se chamava Ortega, e trabalhava como atacadista de tecidos na rua 25 de Março. Contudo, seu negócio não ia bem, e perdia dinheiro. Vislumbrando dificuldades financeiras pela frente, resolveu pegar o dinheiro que lhe restava e bancar o sonho do senhor Mariano. Desta forma, surgiu a Casablanca, com três sócios – Mariano Lavin, Luis Lavin e Ortega.

O Senhor X lembra do senhor Ortega como um sujeito marcante, parecido com artista de filme de faroeste, e extremamente simpático. Era comum o senhor Ortega reunir toda a meninada da região para pagar doces na lanchonete do senhor Mariano.

O primeiro endereço da empresa foi na própria rua do Oratório, mas rapidamente ficou pequeno, e a empresa logo se mudou para o tradicional endereço da rua Madre de Deus. O endereço original da Casablanca não existe mais.

O Luis Lavin era um ótimo desenhista, e já trabalhava profissionalmente com desenho, antes de ser sócio da Casablanca. É dele o desenho da primeira caixa de Forte Apache (abaixo), assinado por “Studio Lavin”.

O pai do Senhor X era um excelente marceneiro e foi o primeiro empregado contratado pela Casablanca, como responsável pela marcenaria da empresa. Nesta condição, o Senhor X acredita, mas não pode afirmar, que ele (seu pai) e o Luis Lavin desenvolveram em conjunto o primeiro modelo de Forte Apache lançado pela empresa, este uma criação genuinamente brasileira. O pai do Senhor X, que poderia confirmar esta informação, faleceu em 1998.

O Forte Apache foi o primeiro produto, lançado pela Casablanca em 1964, e a linha de produtos passou a crescer a partir de 1966.

Também trabalharam na Casablanca dois tios e uma prima do Senhor X.

A Casablanca foi um sucesso imediato e explosivo, o que os obrigou rapidamente a mudarem para instalações maiores, o tradicional endereço da Madre de Deus (imagem abaixo).

A empresa ficava exatamente na esquina da rua Madre de Deus com a Rua Visconde de Inhomerim, imagem abaixo, a 3 quadras do prédio da família Lavin.

Com o impressionante sucesso da empresa, os sócios enriqueceram quase que instantaneamente e se mudaram da região, para local mais condizente com sua nova condição econômica. A partir daí o senhor Mariano era visto pelas ruas da Mooca desfilando no seu reluzente rabo de peixe.

O pai do Senhor X contava que o departamento comercial da empresa praticamente não tinha trabalho, uma vez que toda a produção já estava vendida antes de os produtos saírem das máquinas. O ritmo de produção era frenético, e em épocas de datas especiais (Natal, dia das crianças) o pai do Senhor X sempre chegava em casa de madrugada. Os clientes compravam tudo que a empresa produzia, e queriam mais.

Segundo o Senhor X, logo que viu o imediato sucesso da Casablanca, a fabricante do Toddy ofereceu 1 milhão de dólares pela empresa. Se considerarmos a inflação americana acumulada no período, esta quantia era uma fábula de dinheiro para a época. Os sócios, no entanto, preferiram não vender, e continuar com a empresa que, de qualquer forma, rendia rios de dinheiro.

A pintura das figuras era feita por donas de casa e famílias moradoras da região. Abaixo, a foto do portão da Casablanca onde as figuras eram retiradas e devolvidas.

A mãe do Senhor X era uma das pintoras de figuras, e o Senhor X lembra de acompanhá-la até a fabrica algumas vezes. Sempre era necessário aguardar na fila para ser atendido, o movimento era grande. Além das figuras, o método de pintura a domicílio também foi copiado dos fabricantes espanhóis. O Senhor X lembra que havia na sua casa um varal especial, apenas para secar a pintura das figuras. A Casablanca também fornecia as tintas, mas as pintoras tinham liberdade para fazer a combinação de cores.

Segundo o Senhor X, por iniciativa do Senhor Ortega, as figuras também eram levadas para presídios, para serem pintadas pelos detentos.

A lembrança mais forte do Senhor X é do Natal de 1965, com os brinquedos que seu pai pegava na fábrica e trazia para casa.

Segundo o Senhor X a relação entre os sócios Lavin e o senhor Ortega já estava bastante desgastada no final da década de 1960. Num dia de 1969 o senhor Mariano estava oferecendo uma churrascada na empresa para seus amigos, moradores da região. Alguns parentes do Senhor X estavam participando da festa. Foi quando irrompeu um incêndio na empresa. Não foi um incêndio de proporções avassaladoras, mas provocou bastante estrago. Como havia bastante desgaste entre os sócios, aproveitaram a ocorrência do incêndio, receberam a indenização do seguro, e encerraram as atividades da empresa.

Cada sócio seguiu seu caminho. O senhor Mariano decidiu se aposentar e desfrutar a fortuna acumulada até ali. Morreria logo depois, em 1973. O senhor Ortega continuou no ramo de brinquedos, como diretor da Atma. O Luis Lavin fundou a Gulliver, dando continuidade à produção dos brinquedos de faroeste.

Segundo o Senhor X, seu pai era um espanhol cabeça quente, de difícil convívio. Assim, se desentendeu com os proprietários da Casablanca no segundo semestre de 1966, e deixou a empresa. O Manin Lavin (filho mais novo) foi até a residência do Senhor X para tentar convencer seu pai a voltar para a empresa, mas sem sucesso.

Seu pai foi então procurar emprego, e conseguiu se empregar na ... Indústria de Brinquedos Comanche. A Comanche era uma espécie de cópia da Casablanca, também criada por espanhóis (3 sócios), que decidiram também surfar na onda dos brinquedos de faroeste. O pai do Senhor X foi contratado como vendedor, e o Senhor X lembra quando seu pai chegava em casa com os mostruários de venda da Comanche. Os sócios da Casablanca possuíam alguma irritação em relação aos seus conterrâneos da Comanche, mas não havia nada que pudessem fazer, uma vez que as figuras de ambas eram cópias de originais espanhóis, sem patente no Brasil.

A Comanche não durou muito, e por isso seus produtos são tão raros. Segundo o Senhor X, num verão, enquanto dois dos sócios estavam de férias, o terceiro sócio, que havia ficado encarregado de administrar a empresa, visitou todos os clientes da Comanche e ofereceu descontos para que quitassem à vista seus débitos. Recolheu todo o dinheiro e fugiu para a Espanha. Quando os outros sócios retornaram, a empresa estava quebrada.

O Senhor X não se recorda precisamente se um dos sócios da Comanche também era sócio da Fanabri (do Rio de Janeiro). O fato é que com a quebra da Comanche, o pai do Senhor X foi trabalhar na Fanabri. Com isto, passava temporadas no Rio de Janeiro, sede da empresa, longe da família. O Senhor X lembra que, quando no Rio, seu pai dormia na própria fábrica, e que a cidade já era tão perigosa que seu pai sempre dormia armado.

A Fanabri produzia e comercializava os conjuntos Batalha do Tuiuti e Batalha do Itororó. Segundo seu pai contava, o vendedor que mais ganhava dinheiro na Fanabri era um ex-jogador do Fluminense, que vendia os conjuntos na Vila Militar do Rio.

O Senhor X não se recorda das razões pelas quais a Fanabri encerrou suas atividades. O fato é que o pai do Senhor X nunca mais voltou a trabalhar com brinquedos. Mesmo assim, teve oportunidade de trabalhar nas três fábricas clássicas – Casablanca, Comanche e Fanabri. Quantas histórias ele teria para contar...

Em outro texto vou falar sobre minha idéia de criar um museu de brinquedos de faroeste. Se eu fosse rico, compraria este prédio onde funcionou a Casablanca, restauraria, e colocaria ali o museu. Como não sou ... no dia em que o museu sair do papel (se sair) será em Curitiba mesmo. Mas que dá pena ver o prédio da Casablanca tão mal conservado, ah, isso dá.

Até a próxima.

Marcos Guazzelli

Setembro de 2010

Comentário adicional - o Senhor X entrou em contato comigo e informou que recordou que no mesmo período em que seu pai trabalhava para a Comanche, ele também trabalhava para outra empresa (que o Senhor X não recorda o nome). O golpe aplicado por um dos sócios nos demais, narrado acima, poderia então ter acontecido na Comanche (como narrrado) ou nesta outra empresa. De qualquer forma, seja na Comanche, ou nesta outra empresa, os envolvidos eram conterrâneos Espanhóis. Se eu receber mais informações, publicarei. Abraços.





Comentários

Enviar comentario

De: Sylvio Maia
Excelso!


De: Felisberto Danela
Eu vim para Moóca ainda criança, foi no ano de 1956 onde fiz o curso primario na escola municipal Pandiá Calógeras ao lado do teatro Artur Azevedo, frequentei muito o cine Aliança e vivi na rua Madre de Deus de criança até os anos setenta e dois. Conheci naturalmente esta fabrica mas, como eu era de familia pobre nunca tive condições de comprar este brinquedo chamado de forte apache mas, muitos dos meus colegas tinham e eu brincava junto. A única magoa que ficou desta rua foi no ano de 1984, quando eu já morava em Santos e meu irmão que trabalhava numa gráfica denominada Tipo-Lito Athena o qual também trabalhei por quase 15 anos foi covardemente assassinado friamente por um assaltante na esquina da rua madre de Deus com av. Paes de Barros para roubar-lhe miseros 80 cruzeiros. Tirando este pesadelo fui muito feliz nesta rua onde aprendi a ser alguém na vida. E esta fabrica me fez recordar tudo isto. Um abraço aos amigos da época.


De: Wendell Carlos
Após este periodo eu tenho na lembranças ,a Empresa Equimetal,no qual meu pai Sr. José Carlos exercia sua profissão foi feramenteiro.Sou de 1974 e desde criança eu visitava esta empresa e tenho saudades desta época,pois a empresa nos proporcionou muito amigos e hoje eu tenho uma boa profissão e colocação profissional em função do acompanhamento a profissão de meu pai ,infelizmente a empresa durou até ± 1983,tenho o conhecimento que alguns amigos que se juntaram e criaram a Serimetais.


De: Marcos Avellar
Entre outras revelações, confirmou o incêndio na Casablanca, que muitos não se lembravam, e que serviu de pretexto para suspensão das atividades.


De: Celso Manenti
Muito bom o artigo. O que se percebe é que os proprietários dessas empresas não tinham sentimento algum pelos seus produtos, visavam apenas o lucro.


De: Richard
Trabalho de detetive - muito bom! abs


De: jorge g. filho
Mil parabens pelo site. Essa historia da Gullver e uma viagem no tempo, de epoca na qual nao sabiamos o que havia por tras de nossos amados brinquedos


De: Tadeu Mahfud
Guazelli, admiro seu empenho e vontade de repercutir a história do forte apache. Muito informativo. Qquer hora te visito novamente...Att.


De: José Rodrigues Passarinho
Ver essa foto da cxa do Fort (e não FortE! rs) Apache me faz voltar aos meus 8 anos. E só agora eu soube pq os bonecos não eram todos da mesma cor.


De: José Rodrigues Passarinho
Vc entrevistou minha mãe mas quem ganhou info fui eu. Não sabia que meu pai ia aos churrascos nem que Sr.X. e o pai dele tinham essa história. Mto bom


De: Raul Aguiar
Parabéns Marcos,muito legal!!!


De: Luiz Pizzutti
Que saudade desses tempos e de fábricas como essas citadas, quase familiares. Nada de Hasbro ou Mattel globalizando as mesmas coisas no mundo todo.


De: Dinilson
Muito bom o texto.Muito bem escrito e narrado.Seria fantástico se desse origem a um livro.A indústria nacional precisa desse tipo de memória.Parabéns.


De: cassiaano olegario
tchê, parabéns pela bela pesquisa de campo, foi maravilhoso poder entender um pouco da historia da casablanca, esperamos uma entrevista com a gulliver


De: Tássilo Campos Carvalho
Bela matéria Marcos, esclareceu muitas curiosidades de nós colecionadores, quem sabe um dia uma entrevista com o dono da gulliver...


De: Luiz Carlos Pagliarini
Marcos parabéns pela maravilhosa e importante entrevista com o senhor X, grande abraço.