AQUELE VERÃO DE 1980



À medida em que envelheço vou me transformando num “filósofo”..., com teorias sobre tudo (ou quase). Uma das minhas teorias é que estamos transformando a vida em algo complicado demais, trabalhoso, caro e, pior, cada vez mais temos dificuldade em obter satisfação, satisfação que no passado obtínhamos com coisas simples.

Por exemplo, na época do meu pai (hoje com 91 anos) não se viajava de férias. E ninguém sentia falta de viagem. Durante as férias as pessoas ficavam em casa, visitavam parentes. No máximo iam até uma cidade próxima visitar um parente que não viam há tempos, ou ao sítio. E eram felizes assim.

Já na minha infância e adolescência era a época dos tradicionais veraneios, das temporadas nas praias. Todo o ano, em janeiro ou fevereiro, passávamos 20 ou 30 dias na praia. Primeiro na praia de Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, e a partir de 1978 na praia de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. E éramos felizes com isto, ano após ano passando férias na mesma praia. Já dava algum trabalho, afinal uns dois meses antes do verão tínhamos que viajar até a praia para procurar e alugar o imóvel da temporada.

Hoje passo férias cada ano num lugar diferente do mundo. Dá um trabalhão, custa um dinheirão, surgem diversas situações de stress durante a viagem de “férias”, e sempre volto cansado e com a sensação de que ficou faltando alguma coisa. Aquela mesma satisfação dos 20 dias anuais em Camboriú não consigo mais.

E as próximas gerações, o que vão querer? Viagens interplanetárias? Ou haverá um movimento reverso, onde as pessoas passarão mais tempo em suas casas, para efetivamente descansar?

Fim da parte filosófica do texto.

Entre os tantos verões passados em Camboriú, o de 1980 foi especialmente marcante, por três razões:

- Foi o único verão, entre todos, em que o imóvel locado por minha família foi uma casa, com amplo quintal. Assim, pude levar para a temporada os brinquedos de faroeste, e aquele quintal acabou por testemunhar grandes batalhas (que, infelizmente, não foram registradas em fotografia).

- Durante a temporada de praia estreou a novela Água Viva, uma daquelas novelas que marcaram a vida da gente, e que a Globo desaprendeu a fazer.

- Nas bancas encontrei uma novidade maravilhosa, uma revista chamada Fort Navajo, a primeira de uma nova série, lançada pela editora Vechi (imagem abaixo, do exemplar que adquiri em janeiro de 1980).

O verão de 1980 seria também marcante por outro fato, mas eu ainda não sabia disto naquela época – o fim dos tradicionais brinquedos de faroeste como eu os havia conhecido até ali, e a invasão das figuras Atlantic, que estão por aí até hoje.

Mas voltando ao Fort Navajo, eu me apaixonei pela revista, que trazia uma aventura do tenente Blueberry. Como tenho mania de colecionar coisas, logo me preparei para colecionar esta nova série e ... nada. Nunca mais encontrei na banca nenhum exemplar dando continuidade à série. Anos (muitos) depois soube que houve um número 2. E só.

Décadas depois as fantásticas aventuras do tenente Blueberry foram lançadas pela editora Abril e pela Panini, mas esta maravilhosa série nunca se firmou no Brasil. Não obstante, acredito que tenho em minha coleção quase todos os exemplares que foram lançados no Brasil, por todas as editoras, sendo algumas séries em preto e branco e outras coloridas.

Mas quem me “fisgou” mesmo foi aquele primeiro exemplar de janeiro de 1980.

A história começa com dois tenentes completamente diferentes (um deles Blueberry) a caminho do seu novo posto – o Fort Navajo. Fatos vão acontecendo, a história vai se estendendo, e vai crescendo a expectativa pela chegada ao forte. Quando finalmente entra em cena o Fort Navajo, uma surpresa – o forte era adobe, e não a tradicional versão de madeira (imagem abaixo):

A imagem acima é a original, da revista que adquiri em Camboriú em janeiro de 1980. A imagem abaixo, da mesma cena, mas colorida, me foi enviada pelo Luiz Pagliarini.

Fiquei muito entusiasmado com este forte e, por algum tempo, nas brincadeiras, fazia de conta que meus fortes de madeira eram de adobe...

Mas um forte desses, que é bom, nunca tive. Nem nunca vi no mercado de brinquedos.

Mas eis que agora no início de 2010 o Luiz Pagliarini me envia a foto do Forte Orange, que ele fez (publicada na seção de trabalhos artesanais do site). Vi a foto do trabalho, achei maravilhoso e, algum tempo depois, uma idéia começou a surgir na minha cabeça – se o Luiz consegue fazer o Forte Orange, por que não conseguiria fazer o Fort Navajo?

Com esta idéia na cabeça, entrei em contato com o Luiz, e a resposta foi a melhor possível: “deixa comigo”.

Depois de algumas poucas trocas de idéias, o resultado do “deixa comigo” pode ser visto na imagem abaixo:

Assim, com esta miniatura do Fort Navajo integrando a minha coleção, encerra-se o ciclo que começou lá em 1980.

Até a próxima,

Marcos Guazzelli

Julho de 2010





Comentários

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De: Tássilo Campos
Ja tinha visto no orkut do luiz a foto do forte navajo, mas fiquei imaginando de onde ele teria saido pois nunca havia visto, agora esta ai a resposta


De: LC Pagliarini
Marvellar esta revista você encontra no ML para vender.


De: Marcos Avellar
Excelente história, não conheci a revista, mas o texto prende a gente até o final. O trabalho do Luiz ficou extraordinário, como tudo o que ele faz!


De: Richard
Grande Tenente Blueberry! Também tive a mesma frustação. Felizmente, após mais de 30 anos, consegui completar a coleção (em Portugal saiu tudo)