ALGUMAS MEMÓRIAS DE UM AMANTE DE BRINQUEDOS (MEIO MALUCO?)



Já escrevi aqui que sou um saudosista, o que é exceção no mundo contemporâneo, onde a maior parte das pessoas parece viver numa espécie de “presente perpétuo”, onde a sua memória alcança no máximo os fatos que ocorreram na manhã de hoje, e sua perspectiva de futuro não vai além da noite de hoje. Isto é muito conveniente para os políticos, pois podem dormir tranqüilos, com a certeza de que amanhã ninguém mais lembrará do escândalo de hoje. Até com minha família, que viveu comigo os agradáveis anos 70 e 80, o fenômeno se repete. Quando estou com eles tenho a sensação de que nasceram hoje. Talvez sejam mais felizes do que aqueles que, como eu, insistem em recordar o passado. Fazer o que, minha memória insiste em me lembrar que não nasci hoje de manhã....

Nasci em Porto Alegre em novembro de 1969, e lá vivi até março de 1978.

Não lembro quando comecei a gostar dos brinquedos de faroeste. Minhas memórias mais antigas vão aos 4 anos de idade, e nesta idade eu já tinha brinquedos de faroeste. Eram 4 soldados, bem gastos, e alguns cavalos. Os soldados, tenho até hoje. Nunca soube qual a origem desses primeiros brinquedos, com certeza eram de alguém antes, que me passou. Quem? Por quê? Não sei.

Mas o primeiro Forte Apache ganhei em 1975. Minha avó me deu. Comprou na loja Palácio dos Enfeites, e eu fui junto para escolher. Era uma loja enorme, com duas frentes para ruas diferentes. A lateral esquerda da loja, para quem entrava pela rua Vigário José Inácio, era toda dedicada à Gulliver. A gente ia andando e passava pelas seções de África Misteriosa, Zoológico, Fantasma, Safári, Chaparral, Caravana, Acampamento Apache, e o Forte Apache, em 3 tamanhos. Na oportunidade devo ter escolhido o modelo maior, mas acabei ganhando o mini. Imagino que o pessoal da loja deve ter tirado muitas fotos desse corredor de sonhos ao longo dos anos. Onde estariam essas fotos?

Ao lado do Palácio dos Enfeites, na rua Vigário José Inácio, havia uma loja pequena, meio papelaria meio loja de brinquedos – a Livraria Pluma. Também encontrávamos brinquedos de faroeste lá, em menor quantidade. As duas lojas, lado a lado, eram um sonho. Era um pedaço do paraíso em Porto Alegre. O Palácio dos Enfeites ainda durou por muitos anos, apesar de que com o passar to tempo foi parando de trabalhar com brinquedos de faroeste. A pequena papelaria está lá até hoje, com outro nome.

Na imagem abaixo dá para ver a papelaria (casa azul) atualmente com o nome de Cepal e, mas à frente, o local onde ficava o Palácio dos Enfeites, agora com o nome de “Do Centro”.

Aquela visita ao Palácio dos Enfeites em 1975, e outras tantas feitas depois, me marcou tanto que passei a voltar à loja sempre que possível. No caminho, dava uma parada na papelaria. Mesmo quando sabia que não trabalhavam mais com faroeste, eu os visitava sempre que ia a Porto Alegre. Até hoje, com 40 anos, quando o Palácio dos Enfeites já nem existe mais, passo por lá sempre que vou a Porto Alegre. Talvez um psiquiatra possa avaliar melhor este “fenômeno”. As imagens acima e abaixo, do antigo prédio do Palácio dos Enfeites, e do interior atual da loja, são de uma visita que fiz a Porto Alegre em abril de 2010:

Quando criança, olhava para o futuro cheio de expectativa. Inocentemente, acreditava no homem, acreditava no progresso, e imaginava que no século XXI nossas cidades seriam como a cidade dos Jetsons. Ao olhar para imagens, como a que vai acima, percebo que no século XXI somos apenas uma sociedade de bugigangas, o que me faz recordar dos nativos que por aqui viviam no século XVI, que eram ávidos pelas bugigangas trazidas pelos portugueses. A diferença é que as bugigangas modernas chegam em navios chineses...

A partir de março de 1978 passei a morar em Curitiba com minha mãe, meu padrasto, e três irmãos menores, que vieram em rápida sequência. A casa era bem agitada. Um pouco de tranqüilidade eu só encontrava nos meses de julho, quando passava o mês inteiro com minha avó em Porto Alegre. Éramos só eu e ela, e o único brinquedo de faroeste que eu tinha na casa dela era o Forte Arizona, que está comigo até hoje (foto abaixo). O inverno de Porto Alegre é rigoroso, mas o apartamento dela era ensolarado e gostoso (no verão era um inferno). Lembro de muitas tardes que passei brincando com o Forte Arizona no tapete da sala da casa dela, invadida pelo sol gostoso do inverno Porto Alegrense.

E continuava a visitar o Palácio dos Enfeites e a papelaria, mesmo sabendo que nada encontraria por lá.

Mas eis que lá por 1985 estou em Porto Alegre, de férias, e resolvo fazer minha habitual peregrinação. Quando passo em frente à papelaria vejo, para minha total surpresa, uma pilha de caixas do Fort Rin Tin Tin. Uma pilha mesmo, mais alta do que eu era à época. Imediatamente entro na loja e com o dinheiro que tinha compro....1 Fort Rin Tin Tin. Se fosse hoje, talvez eu comprasse a pilha inteira. Este forte está comigo até hoje (foto abaixo).

Nunca soube qual a história deste lote de Fort Rin Tin Tin. Em 1985 a Trol não produzia mais este brinquedo. Aliás, acho que encerrou a produção ainda nos anos 70. De onde saiu esta pilha de caixas? Talvez um estoque velho da Trol, que resolveu desovar a preço de banana para os lojistas interessados. Não sei. Pouco tempo depois viria a falência da Trol. E não vi Fort Rin Tin Tin em nenhuma outra loja na época, nem em Porto Alegre, nem em Curitiba.

Então, pelo menos uma vez a minha romaria meio amalucada de mais de 30 anos foi recompensada.

Marcos Guazzelli

Maio de 2010

PS: procurei no Google informações sobre o Palácio dos Enfeites e nada encontrei. Incrível, uma loja que existiu por tanto tempo, que deve ter feito a alegria de tantas crianças, desaparece e não fica nenhum registro histórico. Que sociedade é esta em que vivemos, sem passado? Bom, a partir de hoje, com a publicação deste artigo, quem procurar no Google alguma coisa sobre Palácio dos Enfeites vai encontrar, pelo menos, a referência que fiz à loja aqui.





Comentários

Enviar comentario

De: Winston
Ola meu amigo Marco Guazzeli. Eu fui empregado da loja Palacio dos Enfeites nos anos 1989 90 e foi ums dos meus promeiros trabalhos. Agora estou morando no Uroguay, vou le deixar meu facebook e ai a gente pode conversar bastante. Winstonsalvatierra me adicione. Saludos...


De: Sylvio Maia
Muito legal o artigo! Até hoje passo nas Americanas, vou até onde estão os brinquedos, e nada encontro, lógico! Pensei que era só eu que fazia isso! To contigo nessa Guazzelli!


De: Paulo Porto Alegre
olhando todos os brinquedos...que saudade daquele tempo que não volta mais, mas eu vivi naquele tempo e isso é ótimo, lembrar de tudo, cada detalhe...


De: Paulo-Porto Alegre
Inclusive Fort Apache e Polly aqueles blocos coloridos de montar que todo mundo acha que é Lego. Muito atravessei a Galeria do Palacio dos enfeites


De: Paulo -Porto Alegre
Olá,lendo teu texto parece que viajei no tempo tambem, hoje tenho 48 anos e muitos brinquedos meus pais compravam no Palacio dos Enfeites


De: José Antonio Rocha
Meu amigo Eu penso exactamente como você. Por favor pode enviar um EMAIL se quiser para trocar ideias. zrocha@live.com.pt


De: Gabriel Teodoro
Achei muito legal o seu acervo de brinquedos e armas,já que só tenho 12 anos e não pude nem pegar um pouquinho deste tempo de ouro para os brinquedos.


De: guilherme porto alegre
lembrei quando era criança e fui nas lojas americanas um parede lotada de caixas de forte apache e era um febre todos queriam existia 3 tamanhos


De: guilherme porto alegre
isso tudo e legal mais se esqueceu da cidade do zorro que tinha tudo igreja casas eo sargento garcia tambem era legal


De: artur
muito legal sua historia


De: Marcelo
Que relato emocionante! Sou mais um saudosista.


De: Tadeu Mahfud
Eu tbm sou bem nostálgico, o problema que das lojas que eu tinha aqui não sobrou nenhuma! Eu me imagino as vzs ainda nos anos 70 sem preocupações!!


De: Joao Roberto-Cascavel-Pr
Adorei sua historia,faz algum tempo q acompanho suas historias e tenho a mesma idade q a sua e nasci no mesmo ano e mes,meu filho brinca com meu forte


De: marco campanella
oi guazelli.de saudosista e louco,todos temos um pouco...pelo menos nós colecionadores,é lógico!gostei muito da sua matéria.grande abraço.


De: alguma coisa achei
Oi Marcos, sou Antonio da redskorpio. Aqui achei alguma coisa http://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/lojas-de-porto-alegre.html


De: alguma coisa achei
Oi Marcos, sou Antonio da redskorpio. Aqui achei alguma coisa http://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/lojas-de-porto-alegre.html


De: Celso Manenti
Nossas histórias são todas parecidas...Somos todos saudosistas, meio malucos, nostálgicos...de um passado mágico que não volta mais!